Há Lobos Sem Ser na Serra : Cantares do Sul e da Utopia

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Há Lobos Sem Ser na Serra

Cantares do Sul e da Utopia

AVM – Alain Vachier Music

 

Há muito que a chamada música de intervenção andava um pouco esquecida ou arredada das mentes dos artistas e compositores portugueses, salvaguardando-se o caso de esporádicos exemplos que muitas vezes se resumiam a uma ou duas composições em alguns discos. Porém há ainda, felizmente, quem pense que a cantiga continua a ser uma arma e se assuma como um mensageiro de luta e denúncia que não deixa passar em claro a oportunidade de lembrar Abril.

É o caso do agrupamento que dá pelo curioso, mas sugestivo, nome de Há Lobos Sem Ser na Serra, que oriundo do Alentejo profundo chega até nós sob a forma de um disco, “Cantares do Sul e da Utopia”, que deixa no ar uma série de interrogações e que dão muito que pensar mesmo até aos mais distraídos. Convenhamos que hoje em dia, em que tudo alinha com sistemas, partidos e ditames e em que muita gente tem preconceito ou mesmo receio de levantar ondas e questionar, é preciso muita coragem para preparar um projecto destes, onde as palavras assumem papel preponderante e são um veículo de chamamento à razão e simultâneo alerta, sem que isso se torne panfletário e, ainda mais importante que isso, haver ainda alguém com mais coragem e valentia para o editar no mercado nacional…

Citando o quarteto alentejano (António Bexiga, Buba Espinho, David Pereira e Cristina Viana) fiquemo-nos por estes dois excertos de poemas tradicionais que o grupo recuperou : “…papoilas vermelhas/ criadas ao vento/ são cravos de Abril/ deixai-os florir /no meu pensamento…” ou “…as portas que Abril abriu/ ninguém as pode fechar/ se não fosse a Liberdade/ não podia aqui pensar…”. Estamos portanto em presença de uma série de cantigas, quase todas com origem no cancioneiro popular tradicional alentejano, que foram pelo grupo envoltas numa luxuosa embalagem musical de grande qualidade vocal e instrumental a que um certo arrojo e subtileza concederam um ar de modernidade.

Uma modernidade também enriquecida sobremaneira pela utilização de instrumentos da nossa música tradicional tais como guitarras, violas campaniças, piano, melódica e percussão a que os coros, de cariz nitidamente com origem e influência no cante alentejano mas com laços a outros géneros internos ou externos, dão um toque de beleza e reinvenção coral! O Alentejo em grande estilo, e a soar melhor e mais belo que nunca, por causa de quatro lobos que por lá andam à solta e desinquietam tudo e todos.

João Afonso

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Escolhas de João Afonso/Tradisom)