Ryuichi Sakamoto : async

Ryuichi Sakamoto - capa

 

 

Ryuichi Sakamoto

async

KAB America/Milan/Warner Music

 

Voltou ao fim de um interregno de oito anos, período que a mim, aos seus admiradores e aos familiares nos pareceu uma eternidade, o meu “irmão” japonês Ryuichi Sakamoto, o eterno admirador da música de António Carlos Jobim, o fiel enamorado de Sintra onde chegou a pensar comprar, para recuperar, uma casa no centro com azulejos na frontaria representando o Padre Cruz, o apreciador de peixe português pouco grelhado e de pastéis de nata vulgo de Belém, de vinho tinto do Douro, de petiscos à base de sardinhas e de polvo e especialmente polvo de vinagrete, o amante de vinho fino ou generoso do Douro que os mais incautos ou os ignorantes insistem em chamar de vinho do… Porto, sabendo-se no entanto que na capital do Norte não há vinhas, nem vinhateiros, nem tão pouco existem caves.

Sakamoto, o profundo e sincero apreciador de fado e que tal como aconteceu com o violoncelista Yo-Yo Ma, diz não necessitar de se perceber português para se gostar de fado porque ele se encarrega de pouco a pouco nos embriagar de prazer e lentamente nos penetrar… E o pianista e compositor voltou depois de uma luta sem quartel contra um cancro na garganta (logo ele que habitualmente nem canta e fala suavemente, pausadamente, tão pausadamente), uma doença maldita que felizmente venceu contra todas as previsões dos mais pessimistas e até de alguns entendidos. E ganhou a luta porque Buda assim quis que fosse e o destino de continuar a viver e dar novos mundos à música cumpriu-se assim mais uma vez!

A primeira prova desse destino traçado nos meandros recônditos e insondáveis do budismo surgiu agora sob a forma de um novo disco, “async” (sim, com o “a” em minúscula), verdadeira aventura musical no limiar da vanguarda, onde o etéreo toma conta de nós, o respirar das teclas do piano delicia-nos, a sumptuosidade sonora comove-nos e de repente, sem se dar por isso, estamos autenticamente a voar pelo meio das estrelas, dos planetas, da aurora boreal, do… infinito! E aí de repente aprendemos a sonhar de novo, afinal de contas uma coisa que julgávamos já não ser possível neste mundo já quase à beira do abismo, conturbado, religiosamente fanático e aterrorizador, atroz, violentamente feroz e quase diria agonizante em que mais que viver, nós todos… sobrevivemos.

Com o novo trabalho da divindade musical japonesa viajamos (sonoramente) por belos e encantados jardins, luas cheias, quartos crescentes, paisagens lunares e até mesmo de Marte, ao som de uma infinidade de propostas, conceitos, memórias, vivências espaciais e inter-galáticas paisagens e assim redescobrimos o prazer de outra vez, como que inconscientemente, nos tele-transportarmos para oásis de infinita beleza sonora e silenciosos desertos de areia fina e macia, num despertar de sentidos, de desejos e de inauditos prazeres sem limite… Miríade de emoções, de uma arquitectura acústica e artística que nos faz pulsar os sentidos mais aceleradamente e nos transporta até aos confins duma autêntica eternidade sonora, o novo disco do vencedor de Grammys e Oscars e criador de um dos mais sublimes temas de sempre da música acústica, “Merry Christmas Mr. Lawrence”, tem um efeito sublime sobre quem o ouve pois subjuga e esmaga tal a beleza que flutua no ar e dele emana. Um projecto que poderia facilmente ser, como aliás o pianista chegou a dizê-lo, a banda-sonora de um imaginário filme de Tarkovsky ou, porque não, a banda-sonora do próprio… silêncio?

João Afonso

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Escolhas de João Afonso/Tradisom)