Compay Segundo : Olympia Paris 1998

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Compay Segundo

Olympia Paris 1998

Rhino Records/Warner Music

 

O imortal e saudoso Compay Segundo nasceu em Siboney, pequeno povoado de Santiago de Cuba e no dia do seu registo foi-lhe dado o pomposo nome de Máximo Francisco Repilado Muñoz Telles ( 1907-2003), que afinal de contas mais parece um nome da realeza do que o de um simples cidadão cubano. Apesar de em miúdo ter recebido o estranho encargo, para uma criança, de acender os puros para sua avó fumar, mais tarde o ter-se tornado um grande e viciado fumador, acabou por torná-lo mesmo profissional quando aprendeu o ofício de enrolador de charutos, profissão que afinal de contas é partilhada por milhares de cubanos comuns que fazem disso a profissão de uma vida.

Francisco acabaria porém, e depois do aprendizado intensivo de vários instrumentos, de se tornar músico profissional passeando a sua arte e mestria de executante em instrumentos tão diversos como o baixo, a viola e o clarinete para além de também cantar. E se o charuto foi peça importante e imprescindível, além de companheiro inseparável, dos seus primeiros anos de vida, acabaria mais tarde por se tornar um dos seus ex-libris, pois era vulgar ser fotografado com um Cohiba, um Partagas ou um Monte Cristo na mão ou na boca, isto para alem de se ter tornado uma espécie de embaixador do tabaco cubano, “cargo” mais marcante e importante ainda por o seu consumo e venda se terem tornado proibidos nos EUA por causa do estúpido, incongruente e imbecil embargo norte-americano à ilha de Fidel Castro e especialmente aos produtos de lá originários, embargo esse que acabou há tempos atrás por obra e graça do grande presidente Barack Obama, um homem de quem os verdadeiros americanos democráticos já sentem saudades apesar de ainda ter passado pouco tempo desde a sua saída da Presidência. Agora o novo “dono” da Casa Branca quer virar o bico ao prego e desfazer o compromisso assumido pelo antigo Presidente.

Quem não recorda por exemplo, aquando das várias visitas profissionais a Portugal por ocasião do projecto Buena Vista Social Clube e não só, de ver Compay amiudadas vezes a fumar deliciado e até a oferecer algum exemplar dos seus puros a músicos amigos ou mesmo a simples conhecidos juntando ao seu companheiro fumante o imprescindível copo de rum de que só abdicava quando o substituía por um aromático café? Pois este mesmo Compay Segundo, de boa memória, chega agora de novo ao nosso convívio através dum grande disco ao vivo, registo e resumo fonográfico de dois grandes recitais na capital francesa a 24 e 25 do mês de Abril de há quase vinte anos – “Live Olympia Paris 1998”, em que acompanhado pelo grupo habitual que incluía o seu filho Salvador Repilado no contrabaixo e amigos como Omara Portuondo, Pio Leyva e da estrela espanhola Martirio (amigos com quem fez nos concertos uma totalidade de sete duetos) e já com a provecta idade de 91 anos, faz desfilar como que o resumo de uma vida artística e musical de uma riqueza extraordinária através dum reportório de grande beleza melódica onde podemos encontrar canções, na sua voz imorredouras, tais como ”Para Vigo me voy”, “Es mejor vivir asi”, “Guantanamera”, “Fidelidad”, “Chan chan” ou “Ahora me da pena”.

Um valioso documento musical e histórico duma figura lendária, única e irrepetível do chamado son cubano que foi alem do mais também um exímio intérprete de boleros, guarachas e canciones, afinal de contas ritmos caribenhos em que se notabilizou este verdadeiro sobrevivente de uma época, um cantautor que sabia o verdadeiro e real significado do que era “trabalhar no duro”, que mais que um grande intérprete se evidenciou também como conceituado e bem sucedido compositor e de quem os apreciadores da grande e rica musica latino-americana já sentem saudades! Muitas saudades mesmo…

João Afonso

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Escolhas de João Afonso/Tradisom)