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Torga

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Edição de Autor

 

Os Torga são uma das mais recentes, e das mais excitantes, bandas nacionais a “mergulhar de cabeça” nas raízes da música tradicional portuguesa para dela extrair uma música nova, diferente e por vezes com características globais. Formados em 2015 por três amigos que já tinham partilhado várias outras aventuras musicais e de vida – Miguel Quitério (voz, gaita galega, gaita transmontana e flautas), Mike Simões (bouzouki, riq e arquitectura sonora) e João Mendes (percussões) -, os Torga estão a inscrever-se imediatamente na linha da frente de um vasto conjunto de artistas e bandas que partilham uma vontade comum: recuperar as músicas de tradição portuguesa, honrar autores como José Afonso, Sérgio Godinho e outros e nunca esquecer que há um (outro) mundo inteiro lá fora.

Neste seu primeiro EP de cinco temas que na prática são seis, mas já explicamos, os Torga inauguram o disco com “Tudo ou Nada”, que remete directamente para a herança de Zeca Afonso – há até uma citação de “Vejam Bem” (“uma estátua de febre a arder”) – eventualmente passada pelo crivo de uns Gaiteiros de Lisboa. É uma canção, a única com letra original do grupo num total de três temas originais do trio, que é também uma declaração de intenções inicial. Depois, o tal tema que são dois: o tradicional transmontano “Romance da Lhoba” surge cruzado com música do norte de África, nomeadamente o gnawa – como se os “celtas” encontrassem os seus vizinhos “mouros” numa feira medieval do Al-Andaluz e entrassem numa jam conjunta – e, com passagem por ambientes sonoros de um bazar marroquino -, há ali uma segunda parte que é o tradicional beirão “Cantiga da Ceifa” (ou “Por Riba se Ceifa o Pão”) mas com a voz a ser substituída por uma bela gaita-de-foles.

O tema seguinte, um original dos Torga, leva este “Baile da Vontade” a dançar aquilo que parece um lhaço-punk em que a luta dos paulitos pode ser aqui uma sessão de mosh consentido mas nem por isso menos viril e dado a biqueiradas. Depois, com a ajuda de um berimbau hipnótico, aquela que é talvez a maior surpresa deste EP: uma versão da canção de intervenção “Arriba Quemando el Sol”, de Violeta Parra, em que a antiga luta dos mineiros chilenos é sublinhada por uma linha percussiva que imita o ritmo do trabalho das minas e uma flauta que viaja naturalmente até aos Andes. Finalmente, “Fandango de São Miguel”, outro original dos Torga, é uma dança de festa luminosa e garrida que fecha com chave de ouro este disco e mostra bem o diálogo cúmplice entre a gaita de Miguel Quitério e o bouzouki de Mike Simões, com as percussões de João Mendes – mais uma vez – a servir de forte e inventivo cola-tudo do conjunto.

Depois de muitos concertos em Portugal ao longo destes dois anos de existência (Festa do Avante, L Burro I L Gueiteiro, Arredas Folk, Salva a Terra Eco-Festival, GEADA, Cantar Abril, Identidades…), os Torga vão em Novembro tocar no prestigiado festival FolkHerbst, na Alemanha. Um reconhecimento que, espera-se, lhes abram outras portas no circuito internacional dos festivais folk e world music. Eles bem merecem.

Francisco Sotto