Sílvia Pérez Cruz : Vestida de Nit

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Sílvia Pérez Cruz

Vestida de Nit

El Pez Cruz/Universal Music Spain

 

 

Há cerca de um ano e meio, escrevi para uma outra publicação – a revista BLITZ – e a propósito do álbum “Domus”, de Sílvia Pérez Cruz, aquilo que se segue: De África e da Ásia (e da América do Norte), para a Península Ibérica… A começar pela Catalunha, de onde é orgulhosa originária a cantora, poetisa e compositora SÍLVIA PÉREZ CRUZ, que no novo [Domus, *****, Universal Music Spain], banda-sonora do filme “Cerca de Tu Casa” (do realizador Eduard Cortés) em que também é a actriz principal, mostra mais uma vez como é possível contar uma história – neste caso a de uma família desalojada por falta de pagamento de renda da casa –  cantando-se a história. E, neste caso, nem é preciso ver o filme para se perceber o brilhantismo absoluto das canções que a contam/cantam. “Domus” significa “casa” em latim – uma das línguas em que se canta, ao lado do castelhano, inglês e português – e nesta casa habitam, sem ser expulsos, ecos de folk alternativa (de Ry Cooder a Joanna Newsom, de Lhasa a Beirut…), música brasileira filtrada pelos Akron/Family ou os Animal Collective – oiça-se o maravilhoso “Ai, ai, ai”! –, várias tradições ibéricas e europeias ou a música de intervenção latino-americana.

E não, neste caso não é preguiça fazer o “copia e cola” de um texto para encher um outro, este que agora aqui também lhe é dedicado mas a propósito de um novo álbum, “Vestida de Nit”. Porque o texto anterior já abre – involuntariamente – pistas suficientes para se compreender o que se ouve neste novo álbum em que, ao contrário de “Domus”, há apenas três temas originais desta cantautora, sendo todos os outros versões de temas que, por uma razão ou por outra, ela ama e decidiu homenagear. É, portanto, e também à semelhança do que já tinha ficado para trás em parte da sua discografia e nos seus concertos, mais uma declaração de amor a muitas culturas e géneros musicais de uma das cantoras mais ousadas, aventureiras e – gosto da palavra, principalmente quando como aqui é tão apropriada – maravilhosas da actualidade.

Acompanhada por um competentíssimo quinteto de cordas – Elena Rey e Carlos Montfort nos violinos, Anna Aldomà na viola d’arco, Joan Antoni Pich no violoncelo e Miquel Àngel Cordero no contrabaixo -, em “Vestida de Nit”, Sílvia Pérez Cruz constrói um corpo musical absolutamente orgânico, dinâmico e coerente. Por exemplo, espalhados com sabedoria ao longo do disco, Sílvia usa os originais como eventuais traços de ligação entre os temas que lhe são exteriores (ouvindo-se o disco de seguida perceber-se-á melhor): “Loca” é uma canção obsessiva em que se encontram ecos de flamenco – estava a ouvi-la e, ao mesmo tempo, a imaginar como também poderia soar na voz de Buika; “Ai, Ai, Ai” é uma fantasia solarenga e tropical (com algo de Brasil e de México) cantada em inglês que já tinha aparecido com outras roupagens em “Domus”; e “Nao Sei”, que apesar de não ter o til em “não” é uma balada cantada em português e é claramente influenciada por alguns dos maiores compositores brasileiros: João Gilberto, Caetano Veloso, Chico Buarque…

E as versões? Pois, as versões ainda são – na sua voz e nestas suas releituras tão particulares – melhores que os originais. E, de entre elas, há vários em castelhano da Ibéria e da América Latina – a belíssima “Tonada de Luna Llena” (do venezuelano Simón Díaz, cantor de boleros que também recuperou este género quase perdido, a tonada – e que Sílvia conheceu através de uma versão de Caetano Veloso); “Mechita” (do compositor crioulo peruano Manuel Raygada Ballesteros); uma versão completamente deliciosa – e inesperada – do êxito veraneante brasileiro “Lambada (Chorando se Foi)” dos Kaoma (mas aqui na sua versão original, a do grupo boliviano Los Kjarkas, que reivindicou – e ganhou – aos Kaoma a autoria do tema em tribunal); “Gallo Rojo, Gallo Negro”, a canção de Chicho Ferlosio inspirada nos dois lados da Guerra Civil Espanhola e que Sílvia já cantou em vários projectos (Coetus, p.ex.) mas nunca tinha gravado a solo; e “Corrandes d’Exili”, do poeta da resistência catalã Pere Quart e do grande cantor e compositor (também catalão) Luis Llach.

Mas ainda há mais surpresas: “Vestida de Nit” inclui também uma versão espantosa e arrepiante de “Estranha Forma de Vida” (Amália Rodrigues/Alfredo Marceneiro) – e se algum dos mais puristas disser que Sílvia Pérez Cruz não é fadista, armo-me já aqui em escriba do Séc. XIX e convido qualquer um para um duelo. E a extraordinária versão, assombrada e assombrosa, de “Hallelujah”, de Leonard Cohen. E (ainda, ainda) depois… há a canção charneira de todo o disco – e aquela que lhe dá título, “Vestida de Nit”, uma belíssima balada escrita pelos pais de Sílvia: o pai Càstor Pérez Diz (que já a acompanhou várias vezes ao vivo na sua interpretação) é o autor da música e a letra é de Glòria Cruz Torrellas, a mãe. Não fecha o disco, mas é como se o fechasse. Afinal, e depois de várias voltas ao mundo, Sílvia Pérez Cruz acaba por voltar sempre à sua domus.

António Pires