Luar na Lubre : Trinta Anos Depois…

O Fado & Outras Músicas do Mundo orgulha-se de publicar aqui uma entrevista exclusiva ao histórico grupo galego Luar na Lubre conduzida por Mário Correia (jornalista, investigador, musicólogo, recolector de músicas e sons, programador e organizador de concertos e festivais – o Intercéltico do Porto primeiro, o Intercéltico de Sendim depois – em que se cruzou por várias vezes com a banda da Coruña). A história dos Luar na Lubre – que apresentam um dos seus concertos da digressão comemorativa dos seus trinta anos de carreira, dia 27 de Setembro, no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, tendo como convidada especial a portuguesa Sara Vidal, que foi vocalista do grupo entre 2005 e 2011 – é aqui contada por Bieito Romero (fundador, compositor e o homem das gaitas, concertina e sanfona).

De que modo é que as raízes galegas – muito mais do que os referentes ou modelos estrangeiros, nomeadamente da área atlântico-céltica – foram não só o ponto de partida para a vossa carreira musical mas também a razão de ser da mesma?

Sem dúvida, as raízes galegas são o ponto de partida principal e fundamental do nosso projecto musical firmemente ligado à identidade cultural que, como povo do Atlântico, nos faz estar intimamente ligados a outras estética “estrangeiras” que se encaixam na perfeição, por simpatia, proximidade e fraternidade, na Galiza e que foram recebidos como próprios até aos dias de hoje. Portanto, sabendo que o que fazemos é “relativamente” moderno, mantém raízes profundas no folclore, na tradição e na identidade galegas.

A ligação a/com Portugal foi e é inequivocamente cultural e afectiva: continuais a considerar que é necessário dar testemunho dessa partilha de um fundo cultural comum entre o Norte de Portugal e a Galiza? Como achais que deve continuar a ser potenciada?

Portugal é um prolongamento da Galiza para o sul, como a Galiza é uma extensão de Portugal para o norte, portanto, estamos a dizer que, apesar das diferenças, somos povos irmãos com muitas coisas em comum. E isso não só não deve ser evitado, mas em consciência, devemos potencializar ao máximo. É por isso que a nossa música tem uma estética que pode provir do próprio folclore português, que são de origem galega mas soam portuguesas ou mesmo composições próprias que são inspiradas pela vossa música. Ou seja, Portugal está sempre presente porque é mais o que nos une do que o que nos afasta. E, musicalmente, também temos grandes referências como Zeca Afonso, Fausto, Sérgio Godinho, Brigada Victor Jara ……

Que importância dais às composições próprias do grupo? São propostas de renovação de repertórios ou de revitalização de uma inspiração ancestral?

As nossas composições originais são uma parte fundamental da nossa música, sempre feita a partir do conhecimento do folclore e do respeito por ele. Praticamente todas elas são inspiradas pela música tradicional galega, e também na tradição celta e sempre, é claro, têm a sua parte de inovação mas sem deixar de manter o ancestral … Ou essa é a nossa ideia.

Quais são, a vosso ver e sentir, as diferenças mais importantes entre o panorama da folk galega e aquele no qual inscreveste o vosso nome há trinta anos atrás? Considerais terem sido atingidos os objectivos iniciais ou os mesmos foram sendo reformulados de acordo com a evolução das circunstâncias históricas, socais e culturais na Galiza e no seu entorno?

Os tempos mudam; como diria o Fausto: “Atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir” e é verdade que Luar Na Lubre mudou desde o seu início, mas estou igualmente certo de que a alma e a ideia no que toca ao projeto inicial continuam sendo as mesmas, portanto, com a renovação lógica ou a reformulação de muitas das áreas cobertas pelo grupo, a essência permanece a inicial, considerando evidentemente que os tempos estão em movimento e nós com eles.

Sendo certo que Luar na Lubre tem um percurso que conforma a própria evolução e história da música folk galega, de que modo pensais que é possível continuar a escrever, com a vossa assinatura, a história da folk galega?

O tempo é implacável e já nos permitiu escrever parte dessa história… Somos testemunhas de muitos anos de nossa música enquanto protagonistas. Penso que, sob a batuta do respeito e do trabalho bem feito, podemos continuar a compor porque o aval popular nos concede em boa parte essa possibilidade. O resto baseia-se em boas práticas, na tenacidade e em não ser tolo.

Mário Correia