João Ferreira-Rosa : A Nossa Homenagem, por António Pires

No dia 24 de Setembro morreu, com 80 anos, um grande senhor do fado: João Ferreira-Rosa, um príncipe da palavra. Porque, apesar de não ser de origem nobre, João Ferreira-Rosa foi, ao longo de toda a sua vida, o maior e – podemos dizer mais feroz – cultor do chamado fado aristocrático, assumindo de peito aberto as suas convicções monárquicas, intervindo publicamente na defesa da causa real e, acima de tudo, cantando fados – e fazendo poemas – que defendem o Portugal anterior a 5 de Outubro de 1910. Foi ele que popularizou o célebre fado «Embuçado», dedicado ao Rei D. Carlos. Foi ele que, logo após o 25 de Abril de 1974, escreveu um virulento manifesto em que defendia a democracia, mas uma democracia que permitisse ao povo optar entre a República e a Monarquia. Foi ele que, muitos anos depois, a propósito da polémica com os membros do blog 31 da Armada – que hastearam a bandeira monárquica em vários locais públicos –, opinou que deveriam ser presos, para assim dar maior visibilidade à causa e melhor a defender.

Quando se fala de fado, costuma falar-se muitas vezes de música – da música que os nossos fadistas praticam, vivenciam e transmitem – mas também, obrigatoriamente, das palavras que cantam, As palavras que fazem do Fado aquilo que o Fado é na sua essência. E, no caso de João Ferreira-Rosa, temos que falar ainda mais delas: pelo peso que transportam, pela mensagem que transmitem, pelo que de intervenção – e a «música de intervenção» não está apenas onde se espera que ela possa estar (esteve e está no rock, no punk, no hip-hop, na música popular rural, até na chamada música pimba e, claro está, no fado) – têm as palavras que canta, muitas delas por ele escritas. Avesso aos estúdios de gravação, tal como Alfredo Marceneiro (um dos seus compositores favoritos e dos mais usados por João Ferreira-Rosa para, sobre a música de Marceneiro, escrever as suas próprias letras), dele temos menos gravações do que aquelas que merecemos.

Com base nas parcas biografias de João Ferreira-Rosa conhecidas —  incluídas na «Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa» (de Luís Pinheiro de Almeida e João Pinheiro de Almeida) e na «Enciclopédia da Música em Portugal no Séc. XX» (coordenada por Salwa Castelo-Branco) -, na sua diminuta discografia disponível e em entrevistas concedidas por João Ferreira-Rosa à RTP e ao jornal «O Diabo», resumimos aqui a história de uma das personagens, que por direito próprio e aplauso popular, mais contribuíram para a própria História do Fado.

João Ferreira-Rosa (de nome completo João Manuel Soares Ferreira-Rosa) nasceu em Lisboa, a 16 de Fevereiro de 1937. Cedo se apaixonou pelo Fado, tendo começado por cantá-lo para amigos e familiares. E foi na adolescência – com catorze anos — que se estreou em público, interpretando o «Fado Hilário», no Teatro Rosa Damasceno, em Santarém. Várias fontes referem, aliás, que estando João Ferreira-Rosa a estudar na Escola de Regentes Agrícolas desta cidade ribatejana, ele se escapava às praxes dos estudantes mais velhos fazendo-se valer dos seus dotes vocais e alma fadista. De 1957 a 1959, a família mudou-se para Lourenço Marques (actual Maputo), capital de Moçambique, e foi quando voltou – em finais dos anos 50 — que se lançou definitivamente no meio fadista, embora com um carácter ainda amador, actuando em locais emblemáticos como o Tipóia, Márcia Condessa (pertencente à fadista com o mesmo nome) ou A Cesária, todos em Lisboa, ou Estribo Clube, em Cascais, e frequentando ainda as tertúlias fadistas de Alcochete, Santarém ou Chamusca. Foi também na primeira metade dos anos 60 que João Ferreira-Rosa chegou à RTP e às ondas radiofónicas, havendo registos de participações do cantor em programas da Emissora Nacional como «Nova Onda» (1961, ao lado de outros fadistas amadores como Mercês da Cunha Rêgo, Teresa Tarouca e Frei Hermano da Câmara) e «Vinte Minutos de Fado» (1965).

E foi neste mesmo ano que a sorte – e o destino – de João Ferreira-Rosa virou e, de quase desconhecido, passou a fenómeno nacional. Em Dezembro de 1965, sairia o EP que inclui o celebra tema «Embuçado», um dos símbolos-maiores do chamado Fado Aristocrático e uma homenagem directa ao regime monárquico anterior a 1910. Curiosamente, refere a «Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa» — a PIDE e a Censura do regime de Salazar interessaram-se especialmente por esta canção, tendo chegado a proibir a sua divulgação, não pela sua defesa da causa Real mas «devido às possíveis analogias entre a figura de um embuçado (alguém escondido, disfarçado, dissimulado, de cara tapada…) e a de um agente da polícia secreta, a PIDE». Na realidade, o «Embuçado» é um tema inspirado na paixão do Rei D. Carlos (penúltimo Rei de Portugal) pelo Fado. E, já depois da Revolução de Abril, desconfiança semelhante estaria na origem da proibição de outra obra sua, desta vez um livro: em 1974, João Ferreira-Rosa publicou o livro «Fado», que também viria a ser proibido por causa da defesa feroz da Monarquia- Uma defesa que não se resume, portanto, aos fados que escreveu e que cantou, mas que fez questão de transportar para toda a sua vida pública e de fazer transparecer em todas as entrevistas que deu.

joão ferreira-rosa_embuçadoPara se ficar a perceber de uma vez por todas esta questão, nada melhor do que recuperar aqui a emblemática letra (assinada por Gabriel de Oliveira) do «Embuçado» e como este fado chegou depois às mãos e à voz de João Ferreira-Rosa. Reza assim o poema original: «Noutro tempo a Fidalguia / Que deu brado nas toiradas / Andava p’la Mouraria / Onde muito falar se ouvia /Dos Cantos e Guitarradas // A história que eu vou contar / Contou-me certa velhinha / Certa vez que eu fui cantar / Ao salão de um Titular / Lá para o Paço da Rainha / E nesses salão doirado / De ambiente Nobre e sério / Para ouvir cantar o Fado / Ia sempre um Embuçado / Personagem de mistério // Mas certa noite ouve alguém / Que lhe disse, erguendo a fala: / – Embuçado, nota bem: / Que hoje não fique ninguém / Embuçado nesta sala! // Perante a admiração geral / Descobriu-se o Embuçado / Era El-Rei de Portugal / Houve beija-mão real / E depois cantou-se o Fado».

Apesar do enorme sucesso do «Embuçado», a verdade é que João Ferreira-Rosa sempre preferiu continuar a cantar em Casas de Fado – e principalmente nos seus próprios espaços pessoais — do que em estúdios de gravação. Ainda no ano de 1965, comprou em Alfama um armazém que em tempos tinha servido para guardar sacas e transformou-o num dos mais importantes lugares para a prática do Fado ao vivo: O Embuçado (também conhecido como a Taverna do Embuçado), que existiu durante cerca de vinte anos e que foi a sua «casa» de eleição – assim como a de muitos outros fadistas (nomeadamente Alfredo Marceneiro) – durante todo esse tempo.

E, depois de uma carreira discográfica marcada pela discrição quase absoluta – a Enciclopédia da Música em Portugal no Séc. XX» aponta-lhe apenas as gravações dos EPs «Roseira Brava» (1966) e «Trova do Vento Que Passa» (em mais uma das históricas gravações deste tema com letra de Manuel Alegre e música de António Portugal. ao lado dos de Amália Rodrigues, Quarteto 1111 e Adriano Correia de Oliveira; 1968) e do LP «Oração» (1982) –, eis que em 1996 surge, através da EMI-Valentim de Carvalho, o seu duplo-CD de consagração, «Ontem e Hoje», seguido mais recentemente pelo CD gravado ao vivo no Casino Estoril, «No Wonder Bar do Casino Estoril» (com edição da Ovação, em 2004).

Como se pode perceber pelo título, «Ontem e Hoje» é composto por dois discos bem distintos. O CD1, «Ontem», é composto por gravações antigas feitas nos Estúdios Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, com João Ferreira-Rosa a ser acompanhado pelo conjunto de guitarras do lendário Raul Nery e tendo como engenheiro-de-som o não menos lendário – principalmente no meio fadista, devido aos «milagres» que fez com Amália Rodrigues, Carlos Paredes e Alfredo Marceneiro – Hugo Ribeiro. Nesta compilação de temas reunidos para o CD incluem-se os temas «Triste Sorte» (Alfredo Marceneiro/João Ferreira-Rosa), «Fragata» (Francisco Viana/Luísa Bívar), «Despedida» (José Marques do Amaral/Pedro Homem de Mello), «Embuçado» (Alcídia Rodrigues/Gabriel de Oliveira), «Mansarda» (Alfredo Marceneiro/João Ferreira-Rosa), «O Meu Amor Anda em Fama» (Reinaldo Varela/Pedro Homem de Mello), «Fado dos Saltimbancos» (Isidoro de Oliveira/Popular) e «Os Lugares Por Onde Andámos» (Franklin Godinho/João Ferreira-Rosa).

No CD2 da mesma edição, «Hoje», gravado em ambiente ao vivo no seu Palácio de Pintéus, em Loures, nos dias 22 e 23 de Janeiro de 1996, João Ferreira-Rosa é acompanhado pelas guitarras portuguesas de Fontes Rocha e José Pracana, pela viola de João Machado e pela viola-baixo de Joel Pina, com a ajuda de outro mago da engenharia-de-som, José Fortes. O disco abre com um original absoluto (letra e música) de João Ferreira-Rosa, «Arraial», e continua com «Portugal Foi-nos Roubado» (Popular/João Ferreira-Rosa), «Fado Lisboa (Fado Alberto)» (Miguel Ramos/João Ferreira-Rosa), «Armas Sem Coroa (Fado Santarém)» (João Ferreira-Rosa), «Senhora da Conceição» (João Ferreira-Rosa), «Fado Alcochete (Fado Balada)» (Alfredo Marceneiro/João Ferreira-Rosa), «Maria da Cruz» (Frederico Valério/Amadeu do Vale), «Ouvi Cantar as Janeiras» (Popular/João Ferreira-Rosa), «Fadista Já Velhinho (Fado Lumiar)» (Alfredo Marceneiro/João Ferreira-Rosa), «Roseira Brava» (Pedro Rodrigues/Manuel Andrade) e «Portugal Verde-Encarnado» (Fado Minho)» (Francisco Viana/João Ferreira-Rosa).

joao-ferreira-rosa-wonder-bar-do-casino-estoril-43475E no álbum ao vivo «No Wonder Bar do Casino Estoril», João Ferreira-Rosa repega em alguns destes fados e acrescenta-lhes ainda alguns outros:  «Despedida» (José Marques do Amaral/Pedro Homem de Mello), «Triste Sorte», «Embuçado», «Fado Alcochete (Fado Balada)», «Fado Dos Saltimbancos», «Arraial (Fado Pintéus), «Canção Verde» (Alfredo Marceneiro/João Ferreira-Rosa), «Fado Da Carta» (João Ferreira-Rosa), «Fragata», «Aquela Velha Mulher Da Mouraria (Fado Alberto)» (João Ferreira-Rosa) e «Fadista Já Velhinho (Fado Lumiar)».

Muito raramente compunha a música para os fados que cantava, mas João Ferreira-Rosa é o autor de muitas das letras que interpreta, sendo um dos raros exemplos de fadistas que moldaram, de facto, fados já conhecidos – no seu caso, e refira-se mais uma vez, tendo como base muitos dos temas compostos por Alfredo Duarte, o Marceneiro – à sua voz e, mais ainda, à sua ideologia. Na «Enciclopédia da Música em Portugal no Séc. XX», o musicólogo João Silva refere: «(João Ferreira-Rosa) é igualmente autor de letras (algumas de cariz assumidamente monárquico) e melodias para fados estróficos, que integram o seu reportório e também de outros fadistas como João Braga, Nuno da Camara Pereira e Maria da Nazaré (Nota: Mais recentemente, também a fadista Katia Guerreiro interpretou João Ferreira-Rosa através do tema «Arraial», incluído no álbum «Os Fados do Fado»). O seu estilo interpretativo é caracterizado por uma abordagem melódica linear e pelo uso do rubato, do prolongamento de sílabas e de suspensões que, associadas a uma dicção clara, contribuem para uma interpretação centrada nas palavras».

E apesar da linguagem científica utilizada, João Silva acerta completamente no alvo quando refere a «interpretação centrada nas palavras». Porque, ao longo de toda a sua carreira de fadista, João Ferreira-Rosa – apesar de nunca ter descurado a parte musical, melódica e harmónica, de base — sempre deu o protagonismo absoluto aos poemas que cantava, os dos outros e aqueles que escreveu de propósito para assim dar uma maior visibilidade às suas convicções. Outro livre-pensador, igualmente monárquico, o cantor e companheiro de João Ferreira-Rosa em concertos e tertúlias José Cid dizia dele que, «apesar de eu ser monárquico como João Ferreira-Rosa, não o sou da mesma forma que ele nem partilho algumas das suas convicções… Mas não tenho dúvidas que ele é o melhor fadista que, ao mesmo tempo, escreve também as letras dos seus fados».

Citando o seu site oficial, João Ferreira-Rosa «adquiriu, nos anos 60, o Palácio de Pintéus, na aldeia do mesmo nome, no concelho de Loures, onde em 1996 gravou “Ontem e Hoje”. Alguns dos fados deste álbum, carregados de significação patriótica, nunca foram passados nas rádios nacionais. Em Pintéus e na casa que mantém na zona histórica da vila de Alcochete, João Ferreira-Rosa continua hoje a receber tertúlias de músicos e cantadores amigos, unidos pelo amor à Tradição lusitana». Este apego aos lugares em que se sente mais confortável e a sua relutância em deles sair para actuar noutros locais, conferiu às suas «casas» — tal como já tinha conferido à Taverna do Embuçado — uma aura de mistério e de pertença a uma selecta confraria a quem os frequenta. Mas não se pense que o Palácio de Pintéus, recuperado por João Ferreira-Rosa ao longo de muitos anos com sacrifício e amor, se manteve um espaço fechado e alheio à realidade envolvente.

António Pires