Oito Exemplos de Como o Hip Hop ‘Tuga Ama o Fado, por Gonçalo Oliveira

Apesar de, na origem, estarem cronologicamente afastados por mais de um século, as histórias do fado e do hip hop têm algumas semelhanças. Embora ainda hoje nos seja difícil precisar o exacto momento em que foi criado o fado, ou até mesmo em que circunstâncias, é certo que o género musical que hoje é considerado Património da Humanidade tem as suas raízes nas ruas. Vêm de Lisboa os primeiros relatos da canção que transporta a saudade. Era nas classes menos favorecidas que o fado mais se propagava. Desde os homens que conduziam os coches, aos marujos e às prostitutas, ou até mesmo um qualquer rufia numa esquina poderia recorrer à cantiga para ditar a sua lei. As letras recorriam ao calão e aos termos bairristas, algo que afastava o género dos demais portugueses, e que só aderiram à moda após a popularização do fado através dos teatros e outras actividades sociais adoptadas pela aristocracia boémia.

Quem melhor do que o hip hop tuga para abraçar o fado? A cultura da música urbana nacional começou por ser uma cópia do movimento que já se fazia sentir nos EUA, e demorou largos anos até conseguir obter uma aceitação consensual por parte do público. Como tal, o hip hop e o fado acabam por ser géneros inicialmente renegados, cujo reconhecimento só viria a chegar à posteriori. Torna-se natural esta empatia musical, num piscar de olho vindo de uma nova geração de letristas àqueles que lhes antecederam na arte de traduzir a vida e os sentimentos em poemas e melodias.

Entre o corte e costura de samples, covers, remisturas ou novas composições, o Rimas e Batidas – do qual O Fado & Outras Músicas do Mundo tem agora a honra de partilhar este texto – seleccionou 8 exemplos de como o hip hop soa bem quando se mistura com o fado.

[Boss AC] “Que Deus”

Dono de uma enorme versatilidade que o leva a percorrer os mais diversos trilhos sónicos, AC tinha também de dar o seu contributo à ligação entre o hip hop e o fado. Foi em 2005 que um dos pioneiros do movimento nacional editava o seu mais bem conseguido álbum até à data. Ritmo Amor e Palavras serviu de berço para vários singles que ficarão para sempre cravados na história. “Que Deus” é um desses temas, onde AC abre o livro das rimas num instrumental bem português. A vénia é feita em direcção aos Madredeus, através do uso de um sample de “O Pastor”, tema clássico do cancioneiro nacional, cujas raízes remontam ao fado.

Preto no Branco foi o álbum que se seguiu, em 2009. Nele encontramos mais um tema com AC de mãos dadas com o fado, e de forma inédita. Embora o tema sirva de nova vestimenta para os versos de “Mantem-te Firme”, de 2002, “Alguém Me Ouviu (Mantém-te Firme)” coloca o Mandachuva lado-a-lado com Mariza, que surge a cantar no refrão. Uma das maiores vozes do hip hop juntava-se a uma das maiores fadistas de todos os tempos. Histórico.

[Líderes da Nova Mensagem] “Sttop”

Os Líderes da Nova Mensagem protagonizaram aquele que terá sido, certamente, uma das primeiras composições originais para um tema de hip hop com base nas técnicas do fado. Numa altura em que a lei ditava que os instrumentais de rap eram produzidos com uma caixa de ritmos, os LNM inovaram e foram à procura de uma melodia o mais original possível. As notas de guitarra que ouvimos em “Sttop” são um produto do trabalho desenvolvido em estúdio com um guitarrista, deixando de lado a técnica do sampling e o recurso à biblioteca musical nacional.

[Gutto] “Ser Negro”

Antes de se virar exclusivamente para a pop e r&b, Gutto foi protagonista de um dos temas de cariz social e interventivo mais fortes da época. “Ser Negro” retratava a situação dos emigrantes africanos em Portugal, com o hip hop a servir de bandeja para uma importante mensagem por parte do ex-Black Company. Para dar ainda mais ênfase à faixa, Gutto recorreu a um dos artistas mais marcantes da música portuguesa para adornar o seu tema. Enquanto apontava o dedo a um povo ainda contaminado pelo racismo, aproveitava para transmitir uma espécie de mensagem subliminar na escolha do sample, que ecoava “Sede e Morte” de Carlos Paredes. Um sinal de respeito para com uma cultura que não estava conseguir a aceitar a sua.

“Ser Negro” entrou na compilação TPC – Sessões de Hip-Hop Vol.1 que foi editada com o virar do milénio. Boss AC era outro dos MCs incluídos no disco a recorrer ao fado, quando samplou “Lado a Lado”, de Tony de Matos, para dar vida às rimas de Scanner, Kong e Baby Boy.

[Sam The Kid] “Viva!”

Provavelmente o MVP desta lista. Sam The Kid manteve sempre uma relação forte com o fado, de onde surgem vários samples que podemos ir detectando na sua obra. “Viva!” poderá ter sido a sua criação mais importante nesta junção de culturas musicais. O tema seria incluído num álbum de tributo a Carlos Paredes, construído por Samuel Mira com base em “Improviso 2 – 3º Andamento” do malogrado guitarrista português. Como condimento extra, a voz de Carlos do Carmo surge ainda a ecoar no decorrer da faixa.

O seu impacto para com o cancioneiro português viria ainda a gerar outros frutos, ao ponto de ser convidado a entrar em temas num registo que não o seu. Em “Carta de um Soldado da Armada” é Vitorino quem abre a faixa, e juntou-se a Jorge Fernando em “Pois É”.

[Slow J] “Sonhei Para Dentro”

Este é fresco. Slow J cresce a olhos vistos e vem frisando que o frasco do hip hop é demasiado pequeno para o que tenta fazer da música. Abraçar o fado seria quase obrigatório nesta sua entusiasmante passagem pelo circuito do hip hop nacional e da música popular portuguesa. O rapper e produtor transporta aquilo que parece ser um recorte de Carlos Paredes até às fortes pulsações do trap.

[Beatbombers] “Verdes Anos Remix”

Quem diria que Carlos Paredes ainda iria valer um pódio? O estudioso da guitarra portuguesa foi protagonista de um dos mais belos momentos do set que os Beatbombers apresentaram em 2010 na IDA. Sem esquecer, claro, a voz da Amália que surge ao de leve nalgumas passagens. “Verdes Anos Remix” foi o ponto alto da prestação da dupla, que já trouxe o titulo mundial para casa por duas vezes, e que nesse ano acabaria por conquistar o seu primeiro segundo lugar na prova.

O interlúdio ficou de tal forma entranhado na nossa cultura musical que os Beatbombers acabaram por disponibiliza-lo em áudio. Para o currículo ficam ainda várias actuações distintas, em torno da remistura do tema de Carlos Paredes, gravadas no formato de vídeo.

A dupla formada por DJ Ride e Stereossauro acabaria por sentir que o fado também teria espaço no espectro sónico que delineava para o aguardado álbum de estreia. “Rising” faz parte de Beatbombers LP e conta com a participação de Ricardo Gordo na guitarra portuguesa.

[Vários Artistas] Amália Revisited

Hip hop, trip hop, techno, dub… Vários ramos da electrónica aderiram a este batalhão de músicos que se reuniu num álbum para celebrar a obra de Amália Rodrigues. Amália Revisited saiu em 2005 e Sam The Kid tinha ainda uma outra homenagem para prestar ao fado. “Êthos” foi a vénia do hip hop para com a eterna voz portuguesa, numa compilação onde brilharam também Bullet e Liana com “Cansaço (Versão Fantástica)”, Alex Fx e Marta Bernardes em “Sabe-se Lá”, os Cool Hipnoise com “Flor de Lua (Wet Moon Version)” ou Kalaf com os Fusionlab a reinterpretar “Havemos de Ir a Viana”.

[Macacos do Chinês] “Saudade”

E uma banda de fusão com origens no hip hop a contar com uma guitarra portuguesa no alinhamento? Apache e Skillaz tinham-na antes de ingressar na aventura de MGDRV. O projecto dos Macacos do Chinês não durou por muito tempo, mas foi o suficiente para deixar a sua marca e ajudar a desbravar alguns caminhos diferentes que ainda se encontravam tapados em Portugal. O uso da guitarra mais importante para o fado foi o tempero perfeito para aguçar todo o sabor lusitano que surgia no meio de tal projecto experimental. Embora “Rolling na Reboleira” tenha sido o maior hit, “Saudade” será certamente aquele que melhor representa a ligação entre o hip hop e o fado, algo que também só existe em português.

Gonçalo Oliveira

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Rimas e Batidas)

goncalo_oliveira

Gonçalo Oliveira: Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.