Rui Vaz : Fado em Prelúdio

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Rui Vaz

Fado em Prelúdio

Brandit Music Portugal

 

O segundo álbum do fadista e actor algarvio (nascido em Tavira, 1992) Rui Vaz, “Fado em Prelúdio”, é uma das melhores surpresas do fado nos últimos anos. Porque se o seu disco de estreia, “Recorda-te de Mim” (2012), tributo a António Mourão, era um cartão de apresentação de um jovem fadista recém-chegado a Lisboa, este “Fado em Prelúdio” é já um disco mais que seguro, pessoal, pensado e amadurecido quer em termos de voz – e do seu envolvimento musical – quer em termos do reportório cantado.

Dono de um timbre próprio e que já nada a deve a eventuais referências exteriores de início de carreira (Gonçalo Salgueiro, eventualmente), Rui Vaz tem uma voz que escorre como água clarinha, natural e cristalina, sem nunca parecer esforçar-se para soar a algo que não é nem nunca foi, e nem está lá com floreados ou gorjeios desnecessários. É a (excelente) voz que tem, que ele aceita e nós aceitamos pelo que é. Depois, a escolha dos músicos serve na perfeição a sua voz e, mais uma vez, o (variadíssimo) reportório que interpreta. Com ele está o produtor, orquestrador e pianista Mário Rui Teixeira, Bruno Chaveiro na guitarra portuguesa, Bernardo Viana na guitarra clássica, Vicente Sobral no violino, Tiago Azevedo e Silva no violoncelo e Pedro Almeida nas percussões. Um “combo” que serve (bis) na perfeição os vários géneros musicais abordados, com mais guitarra portuguesa e viola essencialmente nos fados tradicionais e clássicos, com os outros instrumentos a serem mais fundamentais nos vários “desvios”.

Porque, sempre fadista, a maior surpresa do álbum é mesmo o seu alinhamento. Um conjunto de temas que navega por várias geografias musicais, por vários ambientes harmónicos, por diversos estilos e sempre – e isso é o mais importante – sem deixar de soar coeso, depurado e coerente. E, também, um espelho de vários amores que o habitam: o fado, sim e acima de tudo, mas também a grande música “ligeira” – com muitas aspas – dos anos 60 e 70, os grandes cantautores portugueses, as marchas de Lisboa e o “folclore”, a música brasileira, espanhola e até a pop anglo-saxónica. Inaugurando o alinhamento com um inédito absoluto, “Viva Lisboa”, fado-marcha de Filipe La Féria e Francis Lopez, o segundo tema abre já a porta a um dos amores referidos, a poesia de José Carlos Ary dos Santos, que aqui assina as palavras de “Canção de Madrugar” (que, com música de Nuno Nazareth Fernandes, seria imortalizada por Hugo Maia Loureiro).

Lá mais para a frente, e também com poemas de Ary dos Santos, encontramos “Demos as Mãos” (um fado com música de Martinho d’Assunção que foi, há muitos anos, soberbamente cantado por Simone de Oliveira), “Namorados da Cidade” (com música de Fernando Tordo e voz “criadora” de Carlos do Carmo no histórico “Um Homem na Cidade”) e “Desespero” (letra que Ary encaixou no Fado Esmeraldinha de Júlio Proença). E, já que falamos de fados tradicionais, em “Fado em Prelúdio” encontramos ainda “Fado do Amanhã” (o Fado Noquinhas de Fernando de Freitas com letra de Vasco Lima Couto) e “Eu Vivo Melhor Assim” (o Fado Marcha de Raul Pinto com letra de Matos Maia e criação original da fadista Cidália Moreira).

Do reportório de outras duas grandes fadistas, Beatriz da Conceição e Amália Rodrigues, Rui Vaz recupera “Ai Esta Ausência de Mim” (de Fernando Campos de Castro, cantada originalmente por Beatriz da Conceição) e , de Amália, o “Rondel do Alentejo” (música de Fernando Guerra e poema de Almada Negreiros), “O Nosso Povo”, tema que no início dos anos 80 Carlos Paião compôs para Amália – tendo ela chegado a gravá-lo mas nunca tendo sido editado sob o seu nome (Nota: Yolanda Soares incluiu-o também no seu mais recente álbum, “Royal Fado”) – e a canção de sabor bem minhoto e gaiato “A Minha Terra É Viana” (Alain Oulman/Pedro Homem de Melo).

Um sabor que habita também a versão que Rui Vaz assina de “Navegar Navegar”, um dos temas mais geniais (e mais próximos da música tradicional portuguesa de matriz rural) que Fausto Bordalo Dias criou para “Por Este Rio Acima”. Ainda outros – e bem-vindos – desvios: o dueto com a cantora Wanda Stuart de “Samba em Prelúdio” (um clássico da bossa nova saído da pena de Vinicius de Moraes), o tema de sabor suavemente flamenco “Lucia”, de Joan Manuel Serrat, e talvez a maior surpresa, a bonita versão de “Everybody’s Changing”, que Tim Ryce-Oxley compôs para os seus Keane. É surpreendente, arrojado e marcante, este “Fado em Prelúdio” de Rui Vaz.

António Pires