Cigdem Aslan : A Thousand Cranes

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Cigdem Aslan

A Thousand Cranes

Asphalt Tango Records/Megamúsica

 

 

Já repeti esta ideia – tão simples – milhares de vezes, mesmo que não tenha sido nunca escrita de facto (pelo menos por mim e assim de forma tão clara). Se só existissem músicos no mundo, a guerra seria um conceito impossível. Primeiro, os instrumentos dificilmente poderão armar-se em armas (sim, sim, os velhos testamentos dizem que os shofars foram usados para derrubar muralhas; os contos de samurais falam do poder dos tambores taiko; os exércitos romanos usavam dezenas de gaitas-de-foles a soar em uníssono para aterrorizar os inimigos; e em Guantanamo os torcionários ianques debitam toneladas de decibéis de temas dos pobres Metallica – e outros – para dominar os infiéis…). E, sim, uma guitarra eléctrica é capaz de partir uma cabeça ou um sousafone – inventado por um senhor músico que também era da tropa – servir de arma de tortura se devidamente atarrachado em alguém. E, sim, também há música heróica/militar/bélica/etc, etc. Mas…

O que se sabe de grande parte da música que se faz e se ouve é que ela une, congrega e pacifica. Mais, muito mais e em muito maior escala que o contrário. E há disso milhares de exemplos, desde o “Lili Marleen” que era tão amado pelos nazis quanto pelos aliados até à conhecida quantidade de grupos musicais que unem judeus israelitas a muçulmanos palestinianos no seu país – que deviam ser dois – sempre em guerra. É por isso que – para além da qualidade musical, que é imensa, variada e congregadora – aquilo que ouvimos neste novo disco da extraordinária cantora turca Cigdem Aslan, “A Thousand Cranes” (“Um Milhar de Grous”, aquelas aves majestosas e migratórias), é mais uma demonstração cabal de como muitos povos tantas vezes desavindos podem unir-se na celebração de vários géneros musicais, que apesar de poderem ter nascido num determinado local não deixam de ser amados por músicos (e fãs em geral) de outros locais, mesmo que permanente ou pontualmente desavindos.

Cigdem nasceu em Istambul, no seio de uma família curda e, só por isso, bem podia dizer-se que o destino dela enquanto embaixadora de várias concórdias estava logo traçado. E, ao longo da sua vida, apaixonou-se por variadíssimos géneros musicais: a música turca e curda – naturalmente – mas também a rebetika grega, a música árabe, a música sefardita dos descendentes de judeus fugidos à Inquisição espanhola e portuguesa, a música dos ciganos dos Balcãs, a música da Anatólia… Músicas que, nascidas em povos que podem estar muitas vezes em lados opostos das barricadas, sempre viajaram livremente de boca-em-boca ou mais recentemente via rádio e cassetes, discos e cinema, internet e… concertos. Música – neste caso, tantas músicas – que, depois de um disco em que o peso das sonoridades turcas de há um século em Istambul e Esmirna era mais acentuado (“Mortissa”, 2013) – estão agora todas presentes em “A Thousand Cranes”, estabelecendo pontes e acentuando diálogos entre várias eras e vários lugares.

Produzido novamente pelo multi-instrumentista grego Nikolaos Baimpas, que dá a “A Thousand Cranes” uma enorme variedade instrumental dos dois lados do Mediterrâneo, o novo disco de Cigdem Aslan é um imenso hino à paz, mesmo que isso nunca seja óbvio. O que é óbvio, isso sim, é que já fazia falta um concerto dela no nosso país.

António Pires