M-PeX : Discurso Directo

M-PeX é um músico, compositor e produtor que tem na guitarra portuguesa o traço distintivo da sua identidade musical, posicionando-a enquanto instrumento solista em ambientes sonoros diversificados e pouco expectáveis. As suas criações ensaiam modernizar e globalizar este instrumento tradicional da cultura portuguesa, culminando numa arrojada e inovadora confluência musical. Hoje – e a propósito da sua mais recente criação, “Carinae” – é meu convidado em “Discurso Direto”.

Ao oitavo disco, continuas a defender a sonoridade original da guitarra portuguesa e a música eletrónica. Este foi um “combate” facilmente compreendido por todos?

No meu entender, a guitarra portuguesa carrega um pesado legado, no sentido de, aparentemente, ser um instrumento indissociável do universo do fado, existindo apenas para potenciar esta expressão artística e tudo o que foge a este formato é ainda visto como algo um pouco marginal. Parece que a guitarra apenas existe para servir o fado, descurando-se a sua expressão enquanto instrumento solista. Penso que por este motivo, e de um modo geral, a fusão da guitarra portuguesa com outras sonoridades seja, por vezes, alvo de críticas por não dignificar o instrumento que melhor exprime e canta o Fado. Mas acho que começa a existir uma maior percepção das potencialidades sonoras da guitarra e uma maior abertura, espero que em crescimento, para se valorizar a sonoridade da guitarra portuguesa em comunicação com outras linguagens musicais que não apenas no fado.

As tuas criações concorrem de alguma forma para “modernizar” e globalizar a guitarra portuguesa?

Espero que sim. Nunca percebi por que motivo a guitarra portuguesa deveria permanecer circunscrita ao universo do fado e o meu desafio é precisamente contrariar essa tendência, colocando a guitarra portuguesa enquanto instrumento solista em ambientes sonoros diversificados e, para algumas pessoas, inesperados.

Numa frase apenas como caracterizarias este “Carinae”?

«Carinae» é uma simbiose conceptual entre a sonoridade original da guitarra portuguesa e a música electrónica ambiental que nasce de um processo de experimentação e de manipulação digital do áudio da guitarra portuguesa originalmente gravado para os temas acústicos.

Qual é o tema que melhor define o “espírito” deste disco?

Sendo uma simbiose, escolheria dois temas, «Carinae» e «Irancae».

O que é o público pode esperar do teus próximos concertos?

Tocarei temas do «Carinae», mas também músicas de outros discos, mas uma coisa é certa, a sonoridade da guitarra portuguesa comunicará com outras linguagens sonoras, podendo também haver lugar a momentos de improvisação.

Para terminar, passado que são 10 anos da edição do teu primeiro disco, alguma vez te sentiste tentado em trocar a guitarra portuguesa por outro instrumento?

Não, mas vou continuar a procurar explorar diferentes sonoridades e outras linguagens artísticas, sempre, de alguma forma, com a guitarra presente. Poderei tentar gravar e fundir todos os instrumentos do mundo, mas guitarra portuguesa estará sempre presente.

António Manuel Almeida

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Portugal Rebelde)