Jozef van Wissem : When Shall This Bright Day Begin

Jozef van Wissem - CAPA

 

 

Jozef van Wissem

When Shall This Bright Day Begin

Consouling Sounds

 

Antagónico ao trabalho presente na banda-sonora de Only Lovers Left Alive, o alaúde de Jozef van Wissem conduz-nos aqui numa viagem hipnótica, quási-celestial (ou etérea, como preferirem) e primordial, numa vagarosa jornada entre rios, vales, planícies remotas ou inóspitas.

Perdem-se os traços urbanos, as visões de vielas e travessas marroquinas, de subúrbios decadentes e ruínas de Detroit do filme de Jim Jarmusch, para a cristalização do ego, da natureza e do negrume presente em ambos, num (pós) minimalismo mais que louvável e impressionante.

When Shall This Bright Day Begin é exímio no espaço, no vazio entre acordes e notas (cirurgicamente tocadas), na vocalização e evocação de cenários: uma igreja em ruínas, banhada pela luz do amanhecer, um cemitério abandonado, confortavelmente húmido, jardins belos e igualmente sinistros, pequenas aldeias num recanto montanhoso, um Cosmos pulsante, em constante expansão e contracção, embutido em todas as faixas do álbum.

Contrastante ao espaço, ao vazio que se regista em quase todos os momentos do álbum, Ruins, que conta com a brilhante participação da cantora Zola Jesus, é, ou são, camadas sobre camadas, instrumentos, almas, lugares, o afluxo e a catarse, o núcleo desse mesmo Cosmos, onde sem letra ou poema, o cântico de Zola é condutor de toda a energia, é lei, cria, consome, regurgita e reinicia o ciclo.

Um universo frio, fantasmagórico, não tão distante, e, mesmo que não queiramos admitir, claramente familiar.

Rui Alexandre Bajouca