Cuca Roseta : Um Novo Disco (Com Uma Nova “Luz”)

Dois anos depois do surpreendente “Riû”, a fadista Cuca Roseta tem agora um novo disco, “Luz”, que tem produção de Diogo Clemente, é editado fisicamente no dia 10 de Novembro e já está disponível nas plataformas digitais. Um novo single, “Balelas” (letra e música de Pedro da Silva Martins), pode também já ser escutado – e visto em teledisco (em baixo). Entretanto, uma edição especial do disco – em pré-venda na FNAC – inclui o primeiro livro de poemas assinados por Cuca Roseta. O comunicado:

Diz a sabedoria popular que a verdade do fado está nos tradicionais e que naquele conjunto de quase 200 melodias passadas de boca em boca se pode viver a vida toda. Mas é natural que cada vida, para ser cantada em toda a sua integridade, precise de um vocabulário e de um código próprios. Sem menosprezo por esse imenso património tradicional, cuja riqueza e vitalidade nem à UNESCO escapou, Cuca Roseta vem reivindicando desde há muito um fado pessoal, feito à sua medida, não se entregando apenas nas mãos de terceiros mas propondo também as suas autorias, aplicando-lhe uma marca verdadeira e única. Um fado, por assim dizer, pessoal, intransmissível e reconhecível num par de segundos.

Não há na escolha deste caminho a mais ínfima arrogância. Mas há certamente a afirmação de uma mulher que não pede desculpa nem pede autorização para reclamar o direito a fazer as suas escolhas. O trajecto de Cuca Roseta tem sido feito, aliás, de pequenas ousadias que, ao invés de a colocarem no trilho mais habitual, confortável e seguro de cantar um repertório indistinto e pouco personalizado, assemelhou-se desde a primeira hora a um processo de descoberta individual. Desde logo, com a produção de um argentino oscarizado, Gustavo Santaolalla (premiado pelas bandas sonoras O Segredo de Brokeback Mountain e Babel), no seu homónimo álbum de estreia em 2011, mas pouco depois expandindo o seu universo com Raiz (2013), em que se assumia como compositora e letrista da maior parte dos temas.

Esse tem sido o caminho de revelação de Cuca Roseta – que o tem percorrido descobrindo-se e revelando-se plenamente, como intérprete, autora, compositora, letrista, mulher inteira no fado. E sempre disposta a buscar-se a cada novo disco, a cada nova oportunidade de se mostrar a um público que cedo se lhe rendeu, desde que a escutou, preciosa, a dar voz a “Novo Fado da Severa (Rua do Capelão)”, magnífico fado amaliano, no filme Fados (2007), do espanhol Carlos Saura. Do Brasil, e não de Espanha, viria em seguida o enquadramento do seu terceiro álbum. Riû, produzido por Nelson Motta – compositor e jornalista que foi o grande responsável pelo lançamento da carreira de Marisa Monte e foi um colaborador próximo de Elis Regina –, significava uma vez mais alguém que, chegado de fora, se enamorava perdidamente pela voz de Cuca.

Motta, que não aceitara produzir nenhum outro disco ao longo da década anterior, deixou-se seduzir pelo fado particular de Cuca Roseta e propôs-se dar-lhe mundo. Para Cuca, Riû era um momento especial de namoro com o Brasil, juntando autorias e convidados tão diferentes quanto Ivan Lins, Jorge Drexler, Bryan Adams, Djavan, Sara Tavares ou Jorge Palma. Mas não apagava o seu passado recente e também a cantora assinava várias letras e duas composições.

Tudo isto para chegarmos aqui, para chegarmos a Luz. O título não engana e a capa também não. A “luzinha” de que Cuca fala em “Cara Carinha” pode ser lida facilmente como uma alusão à candeia que ilumina o seu caminho, a uma luz interior que lhe traz o conforto e a segurança suficientes para fazer deste álbum um novo momento de revelação para Cuca Roseta, aquele que mais longe vai na definição daquele que é o seu fado. E que a própria cantora troca por palavras em “Versos Contados”: “Fado sabe a sentimento / Fado sente a sabedoria / Fado nasce no momento / Fado é novo a cada dia”.

Na esclarecedora e belíssima imagem escolhida para a capa vemos tudo isso: a força afirmativa que Luz traz, a segurança e a paz que existe nas suas escolhas, e uma elegância no canto que nunca antes se fez sentir de uma forma tão declarada. Essa elegância sente-se, por exemplo, num fado de linhagem clássica como “Triste Sina”, autoria da dupla Jerónimo Bragança e Nóbrega e Sousa – que compôs para duas notáveis presenças de Simone de Oliveira e António Calvário no Festival RTP da Canção, em 1965 e 1966 –, tema que foi cantado por Amália Rodrigues e ao qual Cuca empresta aqui a sua voz cada vez mais clara e cristalina. Mas é uma espantosa elegância que toma conta também da muito brasileira “Sábio Mudo” (letra de Cuca para música de Pedro Campos) ou da muito flamencada “Versos Contados” (letra e música de Cuca, abrilhantada pela guitarra de Pedro Joia).

Neste encontro singular de fado, música ligeira e flirts com a música popular brasileira, dificilmente se conseguiria imaginar Cuca a encontrar um cúmplice mais à sua medida do que Pedro da Silva Martins. O homem dos Deolinda (acompanhado em duas composições por Luís José Martins, também guitarrista do grupo lisboeta) oferece a Cuca dois temas notáveis, “Luzinha” e “Até ao Amanhecer”, duas pérolas de pés assentes na música popular portuguesa e que assentam na perfeição na delicadeza vocal da cantora. Mas Pedro da Silva Martins junta-se ainda a Cuca na composição de “Balelas”, primeiro single de Luz, canção graciosa de andamento cheio de ginga brasileira, em que Cuca põe um “xerife, com seu ar de patife” no devido lugar.

É um dos temas mais luminosos de um álbum feito de uma enorme diversidade de registos que, no entanto, não perde o sentido de unidade e avança com uma leveza que é sinónima de um bem-estar e de uma sintonia absoluta com o lado solar da vida, algo que alastra a cada uma das músicas de Luz. Tal diversidade espelha-se num conjunto de autores, de Pedro da Silva Martins, Jorge Fernando e Helder Moutinho a Carolina Deslandes e Fábia Rebordão, mas que chega também aos temas populares “Alecrim” e “Rosinha da Serra d’Arga”, assim como a alguns cativantes exemplares do reportório fadista.

O certo é que na companhia das guitarras portuguesas de Mário Pacheco e Ângelo Freire, da guitarra clássica de Pedro Joia, do baixo de Marino de Freitas, do acordeão de João Barradas ou da viola de fado e produção de Diogo Clemente, Cuca Roseta reclama de uma forma segura e irresistível um lugar especial para a sua música. Não se confunde com nenhuma outra, vive de uma serenidade a todos os níveis sedutora e tão deslumbrante que, como canta em “Até ao Amanhecer”, “podia a vida ficar parada aqui”. E podia mesmo, neste momento de felicidade de que apetece não sair. Tal como nós podíamos também ficar para sempre parados aqui, dentro deste disco, dentro destas canções, a deixarmo-nos invadir pelo calor desta Luz que dá sentido aos dias.