Amália Rodrigues : Amália… canta Portugal

amalia_canta_portugal_capa

 

Amália Rodrigues

Amália… canta Portugal

Valentim de Carvalho

 

 

Este é um duplo-disco notável, recheado de grandes interpretações de Amália no domínio do cancioneiro popular português e que revela toda a autenticidade da diva quando ela simultaneamente ousa e arrisca, qual trabalho sem rede, chegando mesmo por vezes a modificar melodias cantadas originalmente de uma forma completamente diferente, até as tornar como que suas.

É este o panorama de “Amália… canta Portugal”, projecto onde as raízes, a legitimidade e a matriz da música de inspiração folclórica estão soberbamente evidenciadas graças a uma mão cheia de interpretações que conquistam, seduzem e arrebatam até os menos incondicionais… E o que é certo é que algumas destas soberbas execuções vocais se projectaram no tempo e no Mundo de tal modo que hoje em dia é lógico e pertinente que se faça a seguinte pergunta: Será que se não fossem as empolgantes e pessoalíssimas interpretações da deusa portuguesa do fado, canções como “Tirana”, “Oliveirinha da Serra”, “Ti Anica de Loulé”, “Caracóis” ou “Malhão de Águeda” teriam atingido a fama, popularidade, notoriedade e projecção que conseguiram aquém e além-fronteiras? Claro que não!

E isso traz-me até inclusivamente à memoria uma frase absolutamente lapidar do grande cantor brasileiro Ney Matogrosso, ex-líder vocal dos extintos Secos e Molhados, quando juntos por acaso falávamos da deusa e abordávamos algumas das suas mais notórias interpretações e ele convictamente afirmou: ”Amália cantou, está cantado! Amália gravou, está gravado!”. Ora isto, por si só, diz tudo. Depois do fado tradicional, das marchas dos Santos Populares, do fado-canção, das rancheras, das espanholadas e das “aventuras” por canções e línguas estrangeiras, eis Amália em pleno apogeu vocal a dar aos temas de raiz folclórica a importância que afinal de contas muitos deles bem merecem e que aqui são tratados vocalmente com desvelo, carinho, devoção e… alma. A alma portuguesa, pois então!

João Afonso Almeida