Gaiteiros de Lisboa : A História… Explicada por Carlos Guerreiro a Mário Correia

Desde o seu início, há 25 anos (mais coisa menos coisa), que os Gaiteiros de Lisboa têm deixado a sua fortíssima pegada ecológica – e aqui no melhor dos sentidos – na música portuguesa. Quer pela música que eles próprios têm criado, quer na influência decisiva que levou ao aparecimento de inúmeros (outros) grupos que os têm como modelo maior. Agora é tempo de apresentação de um novo disco, a colectânea “A História” (onde a muitos temas já históricos, digamos assim, do grupo se junta um inédito, “Roncos do Diabo”), e de uma nova formação do grupo:  Carlos Guerreiro, Paulo Marinho, Sebastião Antunes, Miguel Quitério, Carlos Borges Ferreira e Paulo Charneca. Dia 11 de Novembro foi o concerto oficial de apresentação no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, integrado no Misty Fest e com os convidados Rui Veloso e Sérgio Godinho. A entrevista em que Carlos Guerreiro responde às perguntas de Mário Correia:

Considerando a obra discográfica produzida pelos Gaiteiros de Lisboa, decididamente que a ortodoxia na abordagem ao legado musical de raiz ou matriz tradicional não é por vós considerado como uma boa ou para vós interessante maneira de respeitar e de revivificar essa herança?

O legado musical sempre funcionou para nós, Gaiteiros de Lisboa, mais como uma referência e fonte de inspiração, do que propriamente como uma fonte de aprendizagem de temas com o objectivo de posteriormente os reproduzir fielmente. É verdade que por essa fase passaram alguns elementos que foram fazendo parte do Grupo ao longo destes últimos vinte cinco anos (José Manuel David, Rui Vaz e Carlos Guerreiro) que deram os primeiros passos nesse terreno em grupos como o GAC ou o Almanaque. Nessa fase inicial, quando todo esse universo ainda era para nós uma espécie de iceberg do qual só conhecíamos e ponta, e muitas vezes nem isso, foi um trabalho que teria sido impossível desenvolver sem a paixão nem o espírito de descoberta que então nos moviam.

Para alguns de nós esse passou a ser o principal campo de trabalho, tendo como importante apoio os cancioneiros e as recolhas musicais então disponíveis, para além de campanhas de recolha realizadas por nós próprios, de forma muitas vezes rudimentar. A nossa atitude era de surpresa e profundo respeito por todo o material disponível, conferindo-lhe um estatuto de intocável. No entanto, já nessa fase inicial, íamos tentando umas tímidas propostas de reinterpretação urbana do legado cultural, mas sempre com o espírito de missão de estar a fazer um trabalho de “relevante interesse cultural”, quiçá os derradeiros salvadores dos padrões ancestrais. Pura ilusão.

Pode dizer-se que iniciámos um movimento que se desenvolveu até à exaustão. A música tradicional passou a estar na moda, e sucediam-se os grupos musicais na área, mas as propostas iam sendo cada vez menos interessantes, e sentia-se que, das duas uma, ou a fonte tinha secado, ou a imaginação dos intervenientes estava à beira do colapso. Foi nessa altura que muita gente como eu, se afastou dessa área musical e foi integrar outros projectos musicais. Eu era dos que achavam que as fontes não se tinham esgotado, o que se esgotara fora a imaginação para novas propostas.

Quando o grupo se formou, em 92, com a estrutura que ainda hoje conserva, a ideia era pegar nas mesmas fontes, mas em vez de tentar respeitá-las absolutamente nos seus mais pequenos pormenores, tentar desconstruí-las de uma forma muitas vezes radical, sem preocupações de respeito científico ou espírito de missão, mas sim por razões meramente estéticas e de entretenimento. Acho, no entanto, que nada disso teria sido possível se cada um de nós não tivesse passado por uma fase de estudo e reinterpretação dessa música. Se não houver um profundo conhecimento de um determinado assunto, é impossível desconstruí-lo de forma séria. Acho, no entanto, que se deve respeitar absolutamente algo que eu defino como a “alma da música”, mas que só consigo sentir, mas não sei descrever. É muito subjectivo, no entanto está lá.

Em que medida podemos afirmar que a música veiculada pelos Gaiteiros de Lisboa é mais uma música de essências primordiais do que propriamente uma reprodução mais ou menos estilizada do cancioneiro tradicional? O mesmo acontece também com a utilização e criação instrumental no seio do colectivo?

Acho que parte desta pergunta já está antecipadamente respondida na resposta anterior, mas reafirmo que de facto, a esmagadora maioria da matéria-prima da obra dos Gaiteiros de Lisboa provem da Tradição Popular, seja a nível de repertório musical, poesia, colagens de pequenos excertos de temas tradicionais em temas de autor, aproveitamento de letras, vestidas com outras músicas, enfim, a tudo nos permitimos. Ao nível instrumental também foi sempre à tradição que fomos buscar as nossas referências, sobretudo no que diz respeito a aerofones, membranofones ou idiofones, mesmo quando aparecemos com instrumentos de aspecto mais extravagante “inventados” por nós.

A omnipresença do diabo e de outras bichezas constitui uma opção de vingança contra um passado de interditos que sucessivamente perseguiram usos e funções destas músicas através dos tempos ou uma exaltação do lado popular e transgressor de muitas destas mesmas músicas?

Esta atitude, embora não premeditada, foi-se desenvolvendo aos poucos, talvez por oposição à imagem que o poder sempre nos quis fazer passar, de um povo português alegre, garrido e folgazão. Os Gaiteiros de Lisboa sempre deram muita importância às letras das canções, por isso a sua obra está recheada de formas estranhas de poesia contando estranhas histórias a que nem escapa o Clero, de resto bastante retratado na poesia popular de forma muitas vezes jocosa e satírica. No fundo não estamos nada interessados no legado que o movimento Folclorista nos deixou, e por isso tivemos que procurar as nossas fontes por nós mesmos e traçar um caminho só nosso.

Estão certos os que, como eu, acreditam que os Gaiteiros de Lisboa criaram uma estética muito própria, personalizada, na abordagem/estilização/inspiração/recriação do legado musical dito tradicional ou como correntemente considerado? De que modo sentes que se abriram caminhos ou sugeriram pistas para uma abordagem reflexiva e actualizada a esse legado digamos que versus uma recriação fotográfica e estática do mesmo?

Como já disse anteriormente, nós surgimos em 92, numa fase em que já eram muito poucos os grupos e as propostas na área da Trad. A nossa ideia era fazer algo de diferente, mas ninguém sabia bem o quê. Foi então que iniciámos um trabalho laboratorial, que tinha como premissa incontornável a Gaita de Foles, numa fase inicial com a ajuda do José Mario Branco. Simultaneamente começaram as surgir as primeiras escolas de Gaita, bem como associações culturais viradas para a tradição, e grupos reinterpretativos da música tradicional. Pode dizer-se que no início fizemos parte de um movimento em que talvez tenhamos funcionado como referência, sobretudo pela forma respeitosa mas descomprometida com que lidávamos com a tradição, combatendo mitos, propondo caminhos menos ortodoxos e respeitando o essencial, que eu não sei muito bem o que é…

Proponho que se ressuscitem – tarefa fácil, está bom de ver! – os velhos gaiteiros de distintas geografias lusas e se coloquem na primeira fila de um dos vossos concertos. Qual pensas que seria a reacção deles: levantarem-se e irem embora ou subirem ao palco e quererem tocar convosco?

Parece-me um bom desafio. Curiosamente nunca estivemos presentes enquanto “Gaiteiros de Lisboa”, em nenhum dos encontros de Gaiteiros que acontecem anualmente em diversas regiões do país. Apenas individualmente alguns têm estado presentes, como o Paulo Marinho. Será porque não queremos “pertencer a um clube em que nos aceitem como sócios?”. De qualquer forma, a Ressurreição está em marcha

Duas décadas e meia depois do vosso aparecimento público, considerais que a vossa “história” dos próximos 25 anos se vai repetir (o Karl Marx diz que quando a história se repete é uma tragédia…), ou seja, o perpetuum mobile que anima o pulsar destas músicas de raiz vai-nos levar a novas ousadias (re)criativas?

Certamente que sim, e é bom que assim seja. Creio que uma das características deste Grupo é não ter um padrão evolutivo. Nunca correremos o risco de nos repetir segundo uma fórmula que um dia funcionou. O nosso campeonato é outro. A dimensão da nossa obra será a dimensão da nossa liberdade no tempo. Por isso o processo será sempre dialético. Com tudo o que ainda está por fazer, retomar padrões seria um desperdício de tempo.

Mário Correia