Marco Rodrigues : Discurso Directo

“Copo Meio Cheio” (Universal Music, 2017) é o nome do mais recente álbum de Marco Rodrigues. Com produção de Tiago Machado, “Copo Meio Cheio” não é um disco de fado, não é um disco de pop, é um disco de Marco Rodrigues, onde a sua identidade e a sua incrível capacidade interpretativa se encontram mais definidas do que nunca. Hoje em “Discurso Direto” é meu convidado Marco Rodrigues.

Podemos dizer que este “Copo Meio Cheio” é um disco com alma fadista?

Sim, o fado é a matriz da música que eu faço já há dezassete anos ou há mais de dezassete anos. E é claro que qualquer interpretação minha irá ter uma matriz de fado, porque é a música pela qual me apaixonei. Neste “Copo Meio Cheio” eu decidi desafiar uma série de compositores e letristas que nada têm a ver com este ambiente e, sim, pode dizer-se que nas oito canções compostas para este disco e nos três fados tradicionais… a matriz fadista está sempre presente porque é matriz da minha música e eu, enquanto intérprete, não consigo nem quero descolar-me dessa matriz.

Três fados tradicionais que ouvimos neste disco têm letra de autores fora do fado, respetivamente Capicua, Carlão e Luísa Sobral. Assumidamente, foi um grande desafio?

Sim. Portanto, depois de ter escolhido as três melodias, os três fados tradicionais que eu queria gravar, pus-me a pensar quem é que poderia escrever para eles. E sem dúvida que, quando os apresentei ao Carlão e à Capicua – à Luísa nem tanto porque eu já tinha trabalhado com ela, ela já tinha escrito para uma música minha… – mas recordo-me que para o Carlão e para a Capicua, era um desafio porque eles estão habituados a escrever de uma forma muito mais livre, sem regras e para se escrever para um fado tradicional há uma série de regras e características que têm de ser respeitadas, tanto a nível de métrica como a nível de rima. E o desafio era exatamente esse: eu desfiá-los a eles para saírem da sua zona de conforto e fazerem um poema para um fado tradicional, com essas tais regras todas. E ao mesmo tempo eu, enquanto fadista, cantar palavras que seguramente não são as palavras que se usam habitualmente no fado. Recordo-me, por exemplo de cantar, no tema que o Carlão escreveu, o “swag”, que é uma coisa que não é normalmente cantada no fado, ou do “fato de treino”. Na letra da Capicua recordo-me de “biscuit”, “croqui”… Portanto, são tudo palavras que, para mim, enquanto intérprete de fado, enquanto fadista, são um desafio enorme. E interpretá-las com a força que elas precisam são um desafio muito grande. Portanto, o desafio foi mútuo e acho que o resultado final é muito curioso, sem dúvida.

“Copo Meio Cheio” é inteiramente dedicado ao seu filho. Esta nova fase da sua vida refletiu-se no resultado final deste disco?

Sim. Este disco é dedicado inteiramente ao Bernardo. E não só este disco mas tudo o que eu faço desde a altura em que ele nasceu. Tem um ano e oito meses e sem dúvida que este ano e oito meses são super-preenchidos. Eu estou muito feliz a nível pessoal por ter conseguido realizar o meu maior desejo, que era ser pai. E agora, neste momento, aparece o “Copo Meio Cheio” , muito também por causa deste estado de espírito. Acho que era a altura ideal para, depois de quatro discos de fados mais tradicionais e assumidamente de fado, gostava que este meu quinto disco fosse de facto um disco diferente. Um disco em que eu arriscasse interpretações fora da minha zona de conforto. E sem dúvida que o facto de ter sido pai fez com que esta ideia e este disco pudessem ganhar corpo. Dedico-o ao meu filho e dedico tudo o que eu fizer, desde o momento em que ele nasceu, ao Bernardo, sem dúvida.

A paternidade, pelo lado mais caricato, está presente no tema “Mal Dormido”, da autoria de Pedro da Silva Martins (Deolinda). Revê-se de alguma forma nesta canção?

O “Mal Dormido” é um tema fantástico; é um tema incrível, escrito pelo Pedro da Silva Martins e pelo Luís (José Martins). É engraçado, porque nós encontrámo-nos num jantar e eu disse ao Pedro “Olha, Pedro, eu gostava muito que compusesses um tema para o meu novo disco e gostava que falasses das partes engraçadas (da paternidade). Não do amor incondicional entre um pai e um filho, porque isso já foi muitas vezes escrito e muito bem. Já foi muito bem cantado; há temas fantásticos que relatam exatamente isso… Mas eu gostava que relatasses aquela parte mais caricata: tu dormias bem e depois começaste a acordar várias vezes por noite; o facto de te levantares e teres um brinquedo espalhado no chão e aleijares-te; o facto de teres fraldas (para mudar); o facto de teres um poema num sítio qualquer… Portanto, eu dei-lhe um pouco o mote: gostava que falasses mais dessa parte mais caricata e sem dúvida que ele arranjou aqui… Não só eu me identifico com tudo o que la está como, seguramente, todos os pais passaram por peripécias dessas como dar um pontapé numa coisa espalhada no chão por ele; a baba… toda essa parte, digamos, mais caricata da altura em que nós passamos a ser pais e conhecemos uma realidade completamente diferente.

Já teve oportunidade de apresentar recentemente no Festival Caixa Alfama algumas das canções deste disco. Qual foi o “feedback” que recebeu do público?

Sem dúvida que apresentar este meu quinto disco, não sendo um disco de fado e sendo apresentado no Caixa Alfama, era um desafio e uma responsabilidade muito grande. Foi muito bem conseguido e fiquei super-feliz porque eu apresentei um espetáculo com três blocos diferentes, sendo que o primeiro era um bloco de fado tradicional; no segundo mostrava então às pessoas tudo isto que tenho estado a fazer neste “Copo Meio Cheio”; e um terceiro misto, entre alguns temas novos e alguns temas mais antigos que fazem parte do meu percurso, mais tradicionais como “A Rima Mais Bonita”, como o clássico “O Homem do Saldanha”… Fiz questão de fazer um alinhamento que não defraudasse as pessoas que iam ouvir fado. E mais radiante e feliz me deixou perceber que os temas novos são temas muito fortes e que as pessoas, de imediato, começam a cantar. O “feedback” foi incrível; foi um grande concerto. Mais uma vez o Festival Caixa Alfama está de parabéns pelo ambiente, por tudo o que consegue criar em duas noites em Alfama. E eu fiquei muito contente por perceber que as pessoas aplaudiram e cantaram e vibraram com os temas novos também, mesmo sendo o maior festival de fado deste país.

Sente-se feliz com este novo “desafio”?

Estou muito feliz. Aliás, neste momento e a menos de um mês de ter saído o disco o copo já não está meio cheio, já está a transbordar. O “feedback” tem sido incrível; as pessoas gostam muito dos temas novos e gostam muito também dos tradicionais com letras, como eu disse, desafiantes e diferentes. E eu estou muito feliz, o Bernardo está muito feliz e eu estou com um copo a transbordar, como disse…

António Manuel Almeida

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Portugal Rebelde)

Oiça o áudio da entrevista em: http://portugalrebelde.blogspot.pt/2017/10/marco-rodrigues-discurso-direto.html