Fado : O Estado da Canção (Parte 1)

Neste e no próximo número d’O Fado & Outras Músicas do Mundo tomamos o pulso ao fado tal como ele existe – em termos de edições discográficas – em finais de 2017, um ano em que foram e estão a ser editados inúmeros discos deste género musical. Um fenómeno que há algumas décadas ninguém conseguira imaginar ser possível… Ninguém? Não. Houve uma pessoa que previu algo de semelhante: Amália Rodrigues, tal como revela Fernando Dacosta no seu livro “Amália : A Ressurreição”, disse que depois da sua morte o fado ressuscitaria com esplendor. E não se enganou. Nesta primeira parte de Fado : O Estado da Canção falamos de “Coliseu – Lisboa, 3 de Abril 1987”, de Amália Rodrigues, “Camané Canta Marceneiro”, de Camané, “Quando se Ama Loucamente”, de Aldina Duarte (na foto), “Belmonte Em Cantos Mil”, de Nuno da Camara Pereira, e “Copo Meio Cheio”, de Marco Rodrigues.

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Amália Rodrigues

Coliseu – Lisboa, 3 de Abril 1987

Valentim de Carvalho

 

E é com Amália que, inevitavelmente, começamos. Porque já falámos dela na abertura a propósito da sua “profecia”, mas também porque é sem dúvida a maior influência da esmagadora maioria de sucessivas gerações de novas e de novos fadistas que apareceram depois dela. Sim, há outras – Maria Teresa de Noronha, Beatriz da Conceição, Lucília do Carmo, Maria da Fé, Argentina Santos, até Hermínia Silva… – mas é Amália quem mais vezes aparece, fantasmada, na voz de incontáveis fadistas.

E isto é mais que natural, devido à projecção nacional e internacional da artista; do imenso reportório português (e de vários géneros) mas também estrangeiro (idem) que interpretou; e, acima de tudo e para sermos completamente verdadeiros, devido a um talento, a uma verdade, a uma postura, a uma ousadia e a um génio inigualáveis. Ou, ainda acima desse cimo, de uma voz como nunca houve antes nem durante nem depois.

Facto curioso: as cantoras preferidas de Amália eram a egípcia Om Kalsoum (usamos aqui uma das grafias possíveis do seu nome) e a cantora lírica greco-norte-americana Maria Callas e, se pensarmos bem, isto faz mais todo o sentido, já que Amália juntava também dentro de si um amor absoluto pela tradição (no seu caso, a portuguesa) e uma curiosidade natural pelos seus desvios e pela erudição (os grandes poetas; um músico além-fado como Alain Oulman para lhe compor algumas das sua maiores canções que em fados se tornariam…).

Aqui não há espaço para grandes dissertações sobre este tema, já que tratamos de um disco específico e tão específico que ele é – “Coliseu – Lisboa, 3 de Abril 1987” -, mas serve, de forma enviesada, para referir duas coisas. Uma, é como quase no final da sua carreira pública, no segundo dos três ou quatro concertos que Amália deu nesta sala lisboeta entre meados dos anos 80 e meados dos anos 90, esta gravação mostra que Amália continuava a ser fiel a este cruzamento de tradicional-popular-erudição nos fados (e canções folclóricas, digamos assim) que canta.

Estão aqui vário fados tradicionais (de Alfredo Marceneiro, Fontes Rocha, Joaquim Campos…), fados-canção extremamente populares, algumas visitas ao cancioneiro rural português, canções com letra dela própria (com destaque para o arrepiante “Grito”) e alguns temas inesquecíveis do “erudito” Alain Oulman, para além de arriscar a estreia de vários temas virgens ao vivo ou em disco: “Soledad”, “Arraial de Sto. António”, “Prece” e “Obsessão”. A outra é a percepção de que, fosse em que género fosse, cantando poetas populares ou eruditos, a sua voz – embora já mais grave, com mais rugas e mais imperfeições – mantinha, inatacável, a magia que fez dela uma das maiores cantoras do Séc. XX em todo o mundo.

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Camané

Camané Canta Marceneiro

Warner Music Portugal

 

Se quisermos fazer uma brincadeira – talvez gratuita, talvez não – com a última frase do texto anterior sobre Amália, mas adaptada a Alfredo Marceneiro, sairia algo assim: “(nos seus últimos anos de vida) cantando sempre fados tradicionais e poetas populares, a sua voz – embora já mais grave, com mais rugas e mais imperfeições – mantinha, inatacável, a magia que fez dele o maior fadista do Séc. XX em Portugal”. Porque, homem de variadíssimas idiossincrasias – ao contrário de Amália, Marceneiro recusava-se a andar de avião, logo não fazia grandes digressões no estrangeiro, e odiava estúdios de gravação (logo são escassos os seus discos, ao contrário de Amália), etc, etc… -, o seu profundo amor e respeito pelo fado e tudo o que ele fez para a sua preservação num estado bem mais próximo das raízes, contribuiu para que a aura de Marceneiro se tenha mantido muito mais dentro de portas do que fora delas.

Mas com que importância e em que escala por cá! Quer no seu tempo, quer nos tempos que se lhe seguiram, Marceneiro é idolatrado por ter sabido continuar uma tradição que lhe é anterior mas que, já no seu tempo, estava a sofrer alguns desvios (principalmente introduzidos pela sua grande amiga, que também o cantou, Amália). Cantor, compositor – são tantos os fados tradicionais assinados por ele (Marcha do Marceneiro, Bailado, Cravo, Cabaré, CUF, Laranjeira, Bailarico, Mocita dos Caracóis, Pierrot…) -, e muitas vezes com melodias sacadas a um pregão ou a outras formas específicas de oralidade popular, Marceneiro foi e é um exemplo de como o fado pode evoluir mantendo as suas características originais intactas.

E é neste sentido – o de um tributo às raízes do fado e a um dos seus maiores cultores – que Camané surge agora, de uma forma pessoal mas não desviante, actual mas feita de respeito e pudor, a cantar vários fados compostos por Marceneiro – e com os poetas que Marceneiro cantou nesses fados – ou por Marceneiro “criados” (isto é, que tiveram em Marceneiro o primeiro intérprete e que, por ser o primeiro, também contribuiu com a sua interpretação para a fixação de uma melodia matricial). A maneira como o disco começa (num ensaio) e todo o seu seguimento são uma delícia absoluta enquanto se ouvem estas canções antigas com música de Marceneiro (e Francisco Viana num dos casos) e letras de poetas populares como Henrique Rêgo, Armando Neves, Gabriel de Oliveira, João Linhares Barbosa ou Carlos Conde. Outro dos heróis de Camané, Carlos do Carmo participa em dueto no “Lucinda Camareira”.

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Aldina Duarte

Quando se Ama Loucamente

Sony Music Portugal

 

E se há fadista contemporânea que se tem mantido, ao longo de toda a sua carreira, fiel aos fados tradicionais – aquele acervo que tem no Menor, no Corrido e no Mouraria as sua matrizes primaciais mas que contém ainda mais 190, 200 ou talvez ainda mais alguns fados – essa fadista é Aldina.

Todos os seus discos até à data, e este novo também, podem conter mais ou menos ousadias: inúmeras letras que não têm nada a ver com as dos fados antigos, e até (dentro deste universo lírico) um álbum inteiro com um conceito que é seguido do princípio ao fim – à semelhança de “Um Homem na Cidade” ou “Um Homem no País”, de Carlos do Carmo, mas esses tinham fados novos e não tradicionais – de seu nome “Romance(s)” e que está nos antípodas da ideia de que cada fado (tradicional) serve para contar uma história (ou várias histórias que nele possam ser encaixadas) completamente autónoma de outras; ou o segundo disco de “Romance(s)” em que o músico e produtor Pedro Gonçalves (Dead Combo) relia, reinterpretava e re-musicava os tradicionais do primeiro disco num contexto sonoro musical completamente diferente.

Agora, em “Quando se Ama Loucamente”, Pedro Gonçalves continua a ser o produtor, Maria do Rosário Pedreira – que tinha escrito a totalidade dos poemas do anterior “Romance(s)” – ainda assina uma letra, mas há muitas outras coisas a acontecer. Sim, e à excepção do tema-título do disco que tem letra e música originais de Manel Cruz (Ornatos Violeta, Foge Foge Bandido, etc), voltam a estar aqui só fados tradicionais (incluindo, lá está, o Cravo de Marceneiro, mas também outros de Armando Machado, João Black – o belíssimo Menor do Porto -, Fernando Freitas, Manuel Ramos ou Alberto Correia). Mas os poemas são quase todos da própria Aldina – inspirados, destilados, sofridos, dissecados, assombrados pela escrita de Maria Gabriela Llansol -, que já muitas vezes antes tinha cantado as suas próprias palavras (para além de também as oferecer a outros) e os instrumentos de fado não permitem cá desvios (embora haja uma caixinha de música em vez de guitarra e viola no tema que abre o álbum e a declamação do texto “Maria Gabriela Llansol” por João Barrento no final).

A voz – cada vez mais madura e sempre com o grau certo de compressão natural, essa, é maravilhosa e absolutamente única.

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Nuno da Camara Pereira

Belmonte Em Cantos Mil

Primetime Records

 

Se há pouco falámos da raridade que é haver discos conceptuais no fado, “Belmonte Em Cantos Mil”, de Nuno da Camara Pereira, pode facilmente inscrever-se nessa escassa linhagem e com um grande mérito logo à partida: a celebração de uma data que, por não ser redonda, está a passar despercebida: os 550 anos do nascimento de Pedro Álvares Cabral, em Belmonte.

E é a partir desse mote longínquo que Nuno da Camara Pereira constrói uma história actual que une, e muitas vezes com surpreendentes e óptimos resultados, o fado de Lisboa com as músicas do Brasil, aquele imenso território sul-americano “descoberto” ou “achado” por Cabral em 1500. Porque neste novo álbum, o fadista – com quarenta anos de carreira permanente -, para além de mostrar uma voz diferente daquela a que nele estamos habituados (aqueles trinados “aristocráticos” já quase não se ouvem e isso é bom), ousa misturar guitarras portuguesas com a guitarra caipira (prima da nossa campaniça) e percussões do Brasil, cavaquinhos, cajon, baixo eléctrico…

E, no meio de canções originais do próprio Camara Pereira em parceria com o compositor brasileiro Luiz Caldas (lançando pontes entre o fado e géneros de além-mar) que unem tudo o resto nesta “História”, há temas brasileiros – que também assentam como uma luva nessa “História” – de Caetano Veloso, Dorival Caymmi e Saulo Fernandes, para além de clássicos portugueses como o imortal “Coimbra”, o divertidíssimo “O Fado É Bom p’ra Xu-xu” (sim, a criação de Amália que o Real Combo Lisbonense também revisitou recentemente em disco) e o “Rio Azul”, o hino não oficial de Setúbal assinado por Mário Regalado. “Belmonte Em Cantos Mil” é um álbum inesperado, raro e importante.

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Marco Rodrigues

Copo Meio Cheio

Universal Music Portugal

 

Depois de quatro álbuns dedicados aos fados tradicionais e clássicos, para além de originais compostos para a sua voz, mas sempre dentro do universo fadista – e prestando tributo a muita gente que veio antes dele como Carlos do Carmo, Max, Tristão da Silva, João Ferreira-Rosa… -, Marco Rodrigues atira-se neste seu novo álbum à interpretação de temas que, na sua maioria, são compostos por muita gente de fora do fado. E sai-se sempre bem da tarefa e, mais ou menos próximos ou mais ou menos distantes da matriz do fado, Marco Rodrigues é sempre fadista.

No meio de canções assinadas por Diogo Piçarra, Boss AC com Tiago Machado, Guilherme Alface com João Direitinho (dois dos ÁTOA), Marisa Liz com Tiago Pais Dias (o casal Amor Electro), Agir e da dupla brasileira Maycon Ananias/Cassyano Correr (4 Cantos), o destaque vai para o delicioso “Mal Dormido”, com letra de Pedro da Silva Martins, que também assina a música ao lado do mano Luís José Martins (ambos ds Deolinda), seguido de perto por “O Amor Desacontece”, este com letra de Jorge Fernando (homem do fado) e música de Tiago Machado (também ele tantas vezes do fado mas não só)

Mas os melhores, mais criativos e mais surpreendentes momentos deste “Copo Meio Cheio” até vêm dos fados tradicionais mas com novas letras de gente de fora do fado: “Vapores” (de Carlão, sobre o Fado Pena de Fernando Freitas), “A Tua Estátua” (de Capicua, sobre o Fado Tamanquinhas de Carlos Simões Neves) e “A Ruga” (de Luísa Sobral, sobre o Fado Latino de Jaime Santos).

António Pires