Ela Vaz : Eu

ELA-VAZ-EU

 

 

Ela Vaz

Eu

Edição de Autor

 

Em 1994, um jovem produtor musical de nome Rui Vaz (não confundir com o ex-membro dos Gaiteiros de Lisboa ou com o fadista algarvio homónimos) estava a deixar uma marca fortíssima na música portuguesa: tinha sido ele um dos responsáveis, ao lado de Carlos Maria Trindade (Heróis do Mar/Madredeus), por aquela revolução no fado que foi o álbum “Amai”, de Paulo Bragança, editado nesse ano. Mas, três anos depois, desaparece prematura e tragicamente… Deixando pelo menos dois “órfãos” pelo caminho: o próprio Paulo Bragança, que viria a gravar um álbum mais tradicional de fado (“Mistério do Fado”, de 1996, produzido por Mário Pacheco) e outro também ousado, embora não tanto quanto “Amai” (“Lua Semi-nua”, de 2001, produzido por José Cid, cúmplice dele e de Rui Vaz e de Carlos Maria Trindade durante bastante tempo). Este viria a ser o último álbum de Bragança, que regressou recentemente aos concertos em Portugal e parece ter novidades discográficas para breve.

O seu outro “órfão”, ou antes, “órfã”, é a própria irmã de Rui Vaz: Micaela Vaz, mais nova que ele quatro anos, influenciada decisivamente pela música que o irmão ouvia e fazia, mas desconfiada do meio musical e dos seus caminhos enviesados; os mesmos que tão cedo levaram o irmão para (demasiado) longe. Micaela sempre se sentiu cantora mas, durante muitos anos, resistiu a este apelo. Até que, em Aveiro, a sua cidade, começou a cantar fado em pequenos círculos e a dar a conhecer uma voz única, a voz dela. Uma voz que a levaria a participar em discos do guitarrista Ricardo Parreira, do grupo Stockholm Lisboa Project, do Fatus Ensemble ou de Fernando Alvim. E começou a reunir, lenta e pacientemente, um acervo de canções – tradicionais portugueses, grandes clássicos nacionais ou estrangeiros e um bom punhado de temas originais feitos para a sua voz – que pudessem mostrá-la ao mundo.

O resultado desse trabalho, feito sem pressas, surge agora, com Micaela a adoptar o nome de Ela e um primeiro álbum de título “Eu”. E diga-se desde já, para não haver dúvidas, que é um álbum extraordinário. Um disco maduro – se calhar, Ela tinha mesmo que deixar passar o limiar dos 40 anos para o editar -, pessoalíssimo, coerente em todas suas diferenças, unido por uma vontade imensa de criar (diferentes) emoções constantes em quem o ouve. “Eu” não é um daqueles álbuns de fácil audição, que agarre imediatamente o ouvinte mercê de grandes refrões orelhudos (quase não os há ou então nem há mesmo) ou de uma canção qualquer que, no meio de todas as outras, é um single óbvio. Não. É, também para nós ouvintes, um álbum para se ouvir devagar, com tempo, com paciência; de modo a, assim, descobrirmos todas as suas nuances, todos os seus caminhos e segredos.

Um dos segredos é, naturalmente, a sua voz: uma voz única que não se parece com nenhuma outra voz feminina nacional. Sim, pode haver aqui e ali algo de Cristina Branco (no lado mais fadista da sua voz) ou de Né Ladeiras (pelo lado das músicas tradicionais), mas se há outra voz que se descobre na voz de Ela Vaz é a de… José Mário Branco. Depois, e este é outro dos segredos, a escolha cirúrgica dos músicos que a acompanham: o já antigo cúmplice Quiné Teles (bateria e percussões; também produtor do disco), os guitarristas Daniel Fonseca e Nuno Caldeira, o contrabaixista António Quintino, o pianista e acordeonista Filipe Raposo, a violinista Daniela Cachada Cardoso ou a flautista Ana Catarina Costa, entre outros, para além de alguns convidados especiais como a cantora galega Uxía (dueto em “Baile em Segredo”, de João Afonso), o cantor e companheiro Rui Oliveira (no belíssimo “O Sino da Minha Aldeia”, com música de Úxia e Sérgio Tannus sobre esse poema de Fernando Pessoa) e Rão Kyao (flauta de bambu em “A Travessia do Deserto”, de José Mário Branco).

Mas se todos estes momentos são, de facto especiais, há muitos outro que também o são. E a começar logo por “Nas Voltas do Mar”, que tem música da própria Ela Vaz e letra de Viriato Teles. O mesmo Viriato Teles que também assina as palavras do single “Amar É Ser Quem Sou” (música de Filipe Raposo) e de “Caminho Certo” (música de Ricardo Fino). E a continuar com outros temas que mostram como “Eu” é sempre um disco – estilisticamente, liricamente, musicalmente – aberto: “Soneto” (Antero de Quental/Miguel Calhaz), “Diz ou Não Diz” (Amélia Muge/Filipe Raposo), “Mais do que Saudade” (Amélia Muge) e “Insónia” (letra de Nuno Camarneiro sobre música tradicional galega). E terminando em mais duas maravilhosas versões: a de “Canção do Mar”, de José Afonso (e que, apesar da coincidência de nome, não é a que Amália ou Dulce Pontes cantaram) e “Poema 15”(de dois génios da música e da poesia chilena, Victor Jara e Pablo Neruda).

Geralmente, numa chamada “crítica” de disco, costuma também falar-se do género – ou dos vários géneros – que esse disco visita, tem como base ou no qual pretende inscrever-se. Aqui, em “Eu”, não vale a pena: porque, e logo ao primeiro álbum, (Mica)ela Vaz criou um território musical que é só d’Ela. E isso é coisa rara.

António Pires