Debashish Bhattacharya : Hawaii To Calcutta – A Tribute To Tau Moe

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Debashish Bhattacharya

Hawaii To Calcutta – A Tribute To Tau Moe

Riverboat Records/World Music Network/Megamúsica

 

Fala-se muitas vezes de músicas migratórias, géneros que – apesar de terem um local de nascimento (mais ou menos) conhecido – viajaram no tempo e no espaço por várias décadas ou séculos e por muitos milhares de quilómetros ao redor do planeta para se virem a fixar com sucesso num lugar diferente. Mas já não é tão comum falar de instrumentos migratórios, apesar de tantos serem os casos conhecidos. E para não referirmos instrumentos óbvios e quase universais – como o piano, o violino ou a guitarra eléctrica -, podemos falar, só para dar alguns exemplos, do bandoneon – instrumento alemão de finais do Séc. XIX que agora toda a gente associa ao tango argentino -, do bouzouki – grego mas quase omnipresente na música irlandesa e escocesa -, do cajón – peruano mas desde os anos 70 indissociável do flamenco espanhol – e até da guitarra portuguesa – que, apesar de algumas teorias divergentes, parece descender da guitarra inglesa (país em que caiu em absoluto desuso, assim como a sua prima alemã, a waldzither).

Mas há, como é sabido, um caso ainda mais flagrante de um instrumento originário de um país que é adoptado por outro e dele fez símbolo e (quase) bandeira: o cavaquinho, que os portugueses durante tantas décadas desprezaram, enquanto os músicos e habitantes do Havai o acarinharam, desenvolveram e rebaptizaram: ukulele. Foi no distante Havai (um arquipélago independente antes de se ligar aos Estados Unidos, em 1898) que, na segunda metade do Séc. XIX, aportaram milhares de migrantes portugueses (dos Açores e Madeira), levando com eles os cavaquinhos que os havaianos haviam de adoptar como filhos legítimos. E fizeram eles muito bem: no início do Séc. XX – depois de um período em que os discos mais vendidos nos Estados Unidos também tinham alguma ligação a Portugal, já que eram composições do luso-descendente John Philip Sousa -, a música mais amada e comprada pelos norte-americanos era aquela que era tocada por havaianos em ukuleles e, numa segunda fase, por outro instrumento que dele se tornou irmão: a steel-guitar havaiana. Um instrumento que levou para os States músicos como “King” Bennie Nawahi – que também tocava ukulele – ou Frank Ferera, luso-descendente que também acumulava os dois instrumentos. Não é unânime, mas parece que é a estes dois que se deve a difusão da steel-guitar na América do Norte, assim como também não é unânime que ambos (entre mais alguns havaianos) tenham influenciado decisivamente a proliferação da técnica da guitarra slide entre os músicos de blues e de country & western.

O que parece ser unânime é que noutra “migração” inesperada de um instrumento, essa mesma steel-guitar havaiana terá chegado à Índia pelas mãos do músico Tau Moe, onde deixou variadíssimos cultores fanáticos: Debashish Bhattacharya (de quem se fala aqui e que adaptou o instrumento havaiano às sonoridades indianas, introduzindo-lhe novas escalas e notas para poder tocar ragas e dando-lhe timbres que soam muitas vezes a sitar ou a santur), sim, mas também – como refere João Santos, na sua Cuíca Dodecafónica – Rajat Nandi, Brij Bhushan Kabra, Charanjit Singh ou Van Shipley. O que é curioso – já que se fala de migrações – é que Tau Moe não nasceu havaiano, mas sim em Samoa no ano de 1908, ainda essa ilha (agora independente) pertencia à Nova Zelândia. Mas cresceu no Havai e sempre se sentiu – até à sua morte, em 2004 – um legítimo havaiano.

E, durante cerca de 60 anos, andou a tocar pelo mundo a sua steel-guitar, que seguia fielmente os princípios dos pioneiros deste instrumento. Influenciando músicos no Japão, China ou Indonésia, os seus ensinamentos fixaram-se com ainda maior acuidade ainda na Índia, país onde Moe viveu durante vários anos. Uma das razões – já aqui aflorada anteriormente – é que a técnica do slide aplicada por Moe à guitarra podia perfeitamente adaptar-se às microtonalidades das ragas clássicas indianas.

Apaixonado desde sempre pela arte e pela técnica de Moe, Debashish Bhattacharya seria um dos seus mais fiéis continuadores indianos, fazendo da linguagem havaiana – e de algum exotismo da música polinésia que Moe trazia no sangue – uma linguagem nova – embora condicionada de forma mais ou menos livre às regras das ragas – na música da Índia. E este novo álbum de Bhattacharya, “Hawaii To Calcutta – A Tribute To Tau Moe”, é um mais que digno tributo do discípulo ao mestre falecido há cerca de quinze anos. Bhattacharya viria a cruzar-se com Tau Moe pouco antes deste morrer, no Havai, em 2004. Mas, tantos anos depois, a vibração das suas cordas continua a ouvir-se nesta nova celebração de uma inacreditável viagem musical que une dois territórios tão diferentes e quase nos antípodas um do outro, através da música que sai dos dedos e dos instrumentos inventados por Bhattacharya – as guitarras chaturangui, gandharvi e anandi – inspiradas no instrumento havaiano. Gravado no Havai – e com a colaboração de alguns dos melhores instrumentistas locais como Benny Chong, Jeff Peterson, Alan Akaka e Bobby Ingano – o álbum é uma enorme celebração de uma herança comum. Aloha e… Namasté (ou vice-versa).

António Pires