La Ruta de las Almas : A Casa da Paz, por Pavel Urkiza

Em mais uma partilha com a revista de música ibero-americana Pura Mestiza, O Fado & Outras Músicas do Mundo orgulha-se de continuar a publicar nesta edição um extenso e importante trabalho assinado por Pavel Urkiza, La Ruta de las Almas, que poderíamos ter traduzido por “O Caminho das Almas” ou “A Rota das Almas” mas que decidimos manter na sua grafia original por uma razão que já a seguir se perceberá. De origem cubana, Pavel Urkiza é compositor, arranjador, guitarrista e cantor. Aclamado pelas suas contribuições para a música afro-cubana, Urkiza tem-se destacado num estilo de fusão chamado Filin Progresivo. É o criador do projecto “La Ruta de las Almas”, um documentário que explora as conexões culturais entre a Península Ibérica e a América Latina.

Antes de publicar a segunda parte de “Da Pérsia à Patagónia” gostaria de partilhar dois textos nascidos durante o processo de criação de “La ruta de las almas”. É sempre interessante mergulhar e fazer parte dos processos criativos. Nesta edição, o primeiro, “A Casa da Paz”, escrito a 10 de Fevereiro de 2012. Obrigado por estar a seguir-me nesta estrada.

Ainda conservo na minha memória o arco de cimento azul na sua fachada. Agora eu sei que representa o arco-íris que surgiu após os doze meses do dilúvio universal, o sinal da aliança de Javé (Deus para os judeus) com Noé, de acordo com o Antigo Testamento da Bíblia. Sempre tive a sensação de olhar para cima, passando pela calçada em frente, ladeando o jardim de uma imensa casa que está dentro de mim com 15 anos. Cada vez que percorria essa calçada, fi-lo com os olhos na sinagoga, fascinado pelo simbolismo, arquitectura e halo de misticismo que rodeia o edifício. Para além do meu tamanho, eu era criança, a sensação de estar a olhar para as alturas que carrego comigo sempre que relembro esse momento na minha memória. Uma escadaria de mármore a subir para a porta da frente e esta composição, de uma perspectiva metafórica, incorpora o preceito talmúdico que determina que a sinagoga deve ocupar o lugar mais alto da cidade.

Na parte superior do pórtico, projectava-se a sombra de uma parte da Estrela de David. A porta de entrada, feita de alumínio, mostra imagens em relevo de alguns elementos que identificam cada uma das doze tribos fundadoras do povo de Israel. Uma delas era a mais impressionante para os meus sentidos, um leão, que para uma criança era obviamente uma imagem muito poderosa. É o Leão da Judeia, um dos animais mais mencionados na Bíblia, que alude à força, beleza, coragem e majestade real ou divina. Outro dos símbolos é a Menorah de sete braços que se refere à criação do mundo em sete dias e aos sagrados candelabros do tabernáculo e dos templos descritos na Torá.

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A história dos judeus em Cuba remonta ao momento em que os peninsulares chegaram, em 27 de outubro de 1492. Luis de Torres, um judeu espanhol, foi um dos primeiros europeus a chegar. Juntamente com os primeiros espanhóis, chegaram os primeiros judeus, que fugiam de uma Espanha dominada pela Inquisição, esperando encontrar a paz nessas terras distantes. Há alguns documentos que sugerem que a única governadora de Cuba, a Sra. Isabel de Bobadilla, era judia. Outro judeu, Francisco Gómez de León, foi preso e executado em Havana no início do século XVII devido às suas convicções religiosas; como ele, muitos outros sofreram a mesma condenação.

Após a intervenção norte-americana no final do século XIX na guerra hispano-cubana-norte-americana, muitos asquenazes, judeus com origem na Europa Central, chegaram do sul da Flórida. No início do século XX, entre 1908 e 1914, judeus sefarditas chegaram do Médio Oriente, principalmente da Turquia e da região sul dos Balcãs. Estes fundaram a sinagoga Shevit Ajim em Havana em 1914 e o primeiro cemitério judeu em Guanabacoa. Em 1929 fundaram o Centro Hebraico na Rua Egido, também em Havana.

Sinto que faço parte de toda esta história, que toda essa energia influenciou directa ou indirectamente a minha essência, cubana, ibero-americana e do mundo, que nas águas do meu espírito, e num barco comum, navega juntamente com todas as demais, a herança cultural que os judeus nos deixaram nas nossas raízes. Até ao final dos anos 80, quando conheci uma cubana de origem asquenaze e a sua família, gente encantadora e muito aberta mentalmente, não os conhecia profundamente. Tinha bastante conhecimento sobre a tragédia do Holocausto e também sobre tópicos de carácter histórico-religioso ou a expulsão dos judeus de Espanha, à semelhança dos árabes. Sabia do conflito no Médio Oriente, do Sionismo, da criação do estado de Israel em 1948 e das suas conotações, a guerra dos 6 dias, etc. Tinha lido “A Espia do Champanhe”, de Wolfgang Lotz, um agente secreto alemão ocidental que espiou a favor de Israel no Egipto e realizou as suas missões num ambiente de luxo, agradável e extravagante, preso em Fevereiro de 1966. Mutos anos depois soube que até ao ano de 1973, Israel teve embaixada na Ilha (Nota da redacção: Cuba) e que muitos dos avanços tecnológicos agrícolas que se implantaram nessa época foram levados por eles.

La Ruta de las Almas_Museu Sefardita de ToledoEm 1993 mudei-me para a Península Ibérica, onde fiquei a viver definitivamente, e comecei a conhecer o legado hebraico do Sefarad, como lhe chamavam os judeus sefarditas. Em Córdova pude aperceber-me da grandeza nascida da sua convivência com os árabes andaluzes, em Toledo da pegada perene deixada no bairro judeu e, em geral, em quase toda a Península, os inúmeros costumes e manifestações culturais que aqui sobrevivem. Para além disso, também tive o prazer de fazer música para um documentário sobre esse importante património preservado no museu sefardita desta última cidade. Aprendi muito ao realizar esse trabalho.

Também por isso, pressinto que assim como nós em Cuba dizemos “el que no tiene de congo tiene de carabalí” (Nota da redacção: significa que todos os cubanos têm sangue negro, seja ele originário dos africanos que para lá foram levados do Congo ou da costa de Calabar, no sul da Nigéria), na Península pode dizer-se que “o que não tem de andaluz tem de sefardita” e, portanto, na maior das Antilhas, como em grande parte da América Latina, temos uma e a outra.

Nessa infância remota ignorava o significado dessa estranha construção próxima da minha casa, mística, admirável e embriagante, mas o poder de alguns símbolos começou a soprar-me à imaginação, despertou em mim o desejo de sentir mais além das palavras, através de imagens criadas pela necessidade humana para exprimir anseios, sonhos e esperanças, isso a que chamamos fé. Abriram uma porta à minha percepção, sem mais conotações que o imenso poder desse imaginário, simbólico, poético e cultural; a semiótica visual das culturas.

Pavel Urkiza

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Pura Mestiza)