Cristina Madeira: Novo Rumo

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Cristina Madeira

Novo Rumo

Edição de Autor

 

No fado, assim como é importante – e só para nos referirmos a mulheres e de uma geração recente – que haja uma Mariza, uma Ana Moura, uma Carminho ou uma Gisela João, que dão visibilidade alargada quer a nível nacional quer a nível internacional (e com todo o mérito, refira-se) a este género musical, também é importante que haja nomes como os de Tânia Oleiro, Cláudia Leal ou Silvana Peres – todas com discos de estreia editados em 2017 – que, na sombra, vão desenvolvendo o (seu) fado, cantando-o quase diariamente no circuito dos antigamente chamados “restaurantes típicos”, levando-os a um círculo menor – mas nem por isso menos importante – de amantes de fado, em Portugal e às vezes no estrangeiro.

A fadista Cristina Madeira pertence a este segundo grupo e, de forma discreta, editou até agora, dois álbuns: “Essência do Fado” (2010) e este “Novo Rumo” (2014). E porque é que uma publicação jornalística – que devia, segundo os cânones, dar apenas atenção à actualidade – cede um pouco do seu espaço a um disco já com três anos (e quatro sobre a gravação)? Porque este disco de Cristina Madeira tem tido uma circulação mais que limitada, nunca esteve à venda nas grandes superfícies (e se calhar nas pequenas também não), mas merece ter muito mais visibilidade do que aquela que lhe tem sido concedida.

Primeiro porque Cristina Madeira – há muitos anos fadista residente no Clube de Fado, de Mário Pacheco – tem uma voz rara e que foge aos modelos habituais nas fadistas de hoje, já que a maior influência que nela se nota é a de Maria Teresa de Noronha. Sem se querer comparar o incomparável – diga-me lá quem é que canta como Amália, por favor -, estão aqui os leves trinados que Teresa de Noronha herdou do seu tio Dom João do Carmo Noronha, uma enorme facilidade em mudar de volume e tessitura – seja de tema para tema, seja dentro de cada tema — e, sempre, uma grande voz (até em termos de potência, tantas vezes “comprimida” de propósito). E, depois, porque este é um disco impecavelmente bem tocado pelos músicos que a acompanham: Eurico Machado na guitarra portuguesa em todos os temas do disco (excepto dois, que ficam nos dedos de Arménio de Melo, um, e Ângelo Freire, outro), Lelo Nogueira – que chegou a tocar com Amália Rodrigues – na viola e Marino de Freitas no baixo e na produção.

Com um alinhamento baseado em grandes fados clássicos – e com uma enorme presença de temas de Alain Oulman, e não só, inaugurados pela voz de Amália Rodrigues (se se for agora ao Facebook de Cristina Madeira não é uma foto de Maria de Teresa de Noronha que aparece em destaque, mas sim a de… Amália) –, podem aqui ouvir-se versões imaculadas de “Ai as Gentes, Ai a Vida” (José Fontes Rocha/Amália Rodrigues), “Sardinheiras” (Fernando Freitas/Linhares Barbosa), “Abandono” (provavelmente a canção de teor mais político que Amália cantou; Alain Oulman/David Mourão-Ferreira), “Prece” (Alain Oulman/Pedro Homem de Mello), “Meu Amor é Marinheiro” (Alain Oulman/Manuel Alegre), “Fado Triste” (Frederico de Freitas/António Lopes Ribeiro), “Barco Negro” (Caco Velho e Piratini/David Mourão-Ferreira) e “Amêndoa Amarga” (Alain Oulman/Ary dos Santos).

Há ainda o fado com letra da própria Cristina Madeira (sobre o tradicional Fado Carlos da Maia) que dá nome ao álbum, “Novo Rumo”, e dois temas com letra e música de Pedro Vilar – o fado “Volta num Beijo” e o fado-marcha “Sou Maria de Lisboa” -, para além de outro fado-marcha, “Cá Vai Lisboa”, de Jaime Martins e Ester Jesus Correia. A maior surpresa de entre todos eles? A versão de “Barco Negro”, com Marino de Freitas a fazer a parte das “percussões” (aquela que conhecemos da versão original de Amália) num baixo eléctrico que está muito próximo do rock e que leva tudo o resto atrás. E é um desvio inesperado, mas bem-vindo, num excelente álbum que, no resto, se mantém sempre fiel ao espírito do fado.

António Pires