Mariano Deidda : Pessoa Sulla Strada Del Jazz

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Mariano Deidda

Pessoa Sulla Strada Del Jazz

Valentim de Carvalho

 

Tinha que ser um estrangeiro, neste caso um italiano, louco no bom sentido do termo e ao mesmo tempo, e por isso mesmo também, um adepto incondicional da obra do grande Fernando Pessoa (1888-1935), a reconhecer a grande musicalidade da obra do imortal português , dono de um espólio literário a todos os títulos brilhante, impar, apaixonante, e definitivamente genial.

Apesar de poucos, tímidos, casos de uso de alguns poemas de Pessoa para ilustrarem literariamente algumas canções por parte de artistas portugueses (também Patxi Andion musicou inspiradamente uma das obras para um disco de Ana Moura, “Vaga no azul amplo triste”), o caso de Mariano Deidda é na realidade notável e único pela grande paixão que nutre pelo poeta, arrebatamento que se traduziu já anteriormente na edição de nada menos de quatro álbuns e uma trilogia , trabalhos esses que para além de terem granjeado grande popularidade e prémios ao seu autor e o reconhecimento unânime da crítica em Itália, ajudaram também a projectar o nome do intérprete e compositor italiano noutras diferentes latitudes geográficas e musicais.

Entre nós, Mariano, que já por diversas vezes, por gosto e hábito, transformou em música os versos de outros grandes poetas, viu recentemente editado o segundo trabalho sobre a obra de Pessoa através do disco “Pessoa Sulla Strada del Jazz” disco para o qual ele teve o cuidado de se rodear de um naipe de excepcionais músicos de jazz tais como, são sem dúvida, Enrico Rava e Kenny Wheeler (trompetes), Gianluigi Trovesi (clarinete) e o mítico contrabaixista Miroslav Vitous, membro dos Weather Report, entre outros. O fascínio e a profunda e sincera dedicação devotada ao trabalho de Fernando Pessoa (ou será de Alberto Caeiro ou Ricardo Reis ou Álvaro de Campos? ) por parte de Mariano Deidda arrastaram o trabalho do poeta alfacinha, que também foi crítico literário, publicitário, inventor, astrólogo e escritor, entre outros afazeres, para os meandros do jazz.

E tudo mercê de uma sonoridade de indubitável qualidade, que a voz bela e grave de Mariano completa com eloquência e mestria proporcionando-nos assim um verdadeiro festim de grande musicalidade, ao longo de uma obra de rara beleza, brilhantismo e sensibilidade qual banquete musical e lírico intemporal que o tempo certamente se encarregará de transformar num disco de estudo pessoano.

João Afonso Almeida

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Escolhas de João Afonso Almeida/Tradisom)