Miguel Poveda : E a Entrega à Música

Às 21h do dia 11 de novembro de 2017, a programação do Misty Fest levou ao palco da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, uma das maiores vozes da atualidade: o catalão Miguel Poveda, para o concerto “Íntimo”, que passeia pela poesia e copla, flamenco tradicional e a canção andaluza. O cantor veio acompanhado por um time de músicos de peso, composto pelo pianista Joan Albert Amargós, pelo guitarrista Jesús Guerrero e pelo baterista e percussionista Antonio Coronel.

Feitas as primeiras considerações, é preciso dizer que o presente artigo assumidamente caminhará entre o jornalismo e a admiração, uma vez este que vos escreve é fã do cantor há anos. Entretanto, é preciso também dizer que até o mais imparcial dos ouvintes se emocionaria diante de um artista tão dedicado e apaixonado pelo que faz.

A primeira parte da apresentação, dedicada à poesia, deu-se com todos os músicos no palco e arrancou com “Guerra a la Guerra Por la Guerra”, single do mais recente álbum de Miguel Poveda, Sonetos y poemas para la libertad (2015), e já neste número de abertura tivemos uma amostra da técnica impecável e do carisma do cantor. “Espero que hoje, quando vocês chegarem em casa, sintam que pelo menos algo dentro de vocês foi tocado e transformado”, disse o cantor, anunciando desde logo o comprometimento que cultiva com o público e com a arte.

O primeiro acto passeou ainda por clássicos do género, como “Donde Pongo la Vida”, de Ángel González, Pedro Guerra e Joan Albert Amargós e encerrou-se com “Los cuatro muleros y Anda jaleo”, dois poemas de Federico García Lorca, que compõem um tema ainda inédito que fará parte do próximo disco de Poveda, a ser editado em 2018.

O segundo acto, dedicado ao flamenco, teve início com um número instrumental por Bulerías protagonizado por Jesús Guerrero e Antonio Coronel que, com um andamento acelerado, fazia lembrar algumas parcerias de Paco de Lucía com Camarón e preparava o público para a intensidade do momento que se seguiria. Miguel Poveda retornou então ao palco e entregou-se ao cante tradicional, passando pelos Fandangos, Tonás e Cantiñas. Com respeito e maestria, Miguel alternava os palos e, ao final de cada canção, levantava-se da cadeira para, num código tradicional do flamenco, indicar que havia acabado de cantar.

Ele também rendeu homenagem a um dos notáveis casais do flamenco, Lole y Manuel, e encerrou esta parte do concerto cantando por Tientos y Tangos. E foi aí que, mais uma vez, o carisma de Poveda nos surpreendeu: munido de microfone sem fio e desfrutando da impecável sonorização do teatro, o cantor desceu do palco e esteve junto do público, caminhando e cantando entre as fileiras de poltronas e voltando ao cenário para fechar o segundo bloco.

A terceira e última parte do concerto começou com dois números instrumentais de Joan Albert Amargós. Quando Poveda retomou seu lugar ao palco, os dois passearam pela copla, num entrosado diálogo. Em um determinado momento, o cantor distraiu-se e, bem humorado, pediu para que Amargós tocasse a introdução novamente, no entanto, não foi necessário mais nem uma nota: como quem toma consciência de quem já sabe o que precisa, Poveda começou a cantar. Amargós sorriu em aprovação e os dois seguiram nessa conversa descontraída.

A seguir, os outros músicos voltaram ao cenário para os últimos temas da noite. O encerramento da apresentação deu-se com mais um gesto de respeito e carinho de Miguel Poveda pelo seu público: acompanhado por Jesús Guerrero, cantou “Meu Fado Meu”, tema que dividiu com Mariza no filme Fados, de Carlos Saura, atentando-se ainda para cantar em Português, levando a platéia a saudá-lo – mais uma vez – de pé. Os músicos deixaram o palco e retornaram a seguir para um descontraído bis, com uma versão composta por voz, guitarra e palmas do clássico “Mis Tres Puñales”

Seria redundante escrever aqui que Miguel Poveda é um dos mais notáveis artistas da atualidade, reconhecimento que vem tanto do seu público quanto dos críticos e veículos de imprensa. Nos concertos, o cantor mostra toda a sua entrega, dedicação, técnica impecável e carisma, e a noite do dia 11 de novembro não foi diferente.

Após a apresentação, o músico recebeu-me ainda no camarim, para uma breve conversa, uma fotografia e um autógrafo. Nesse momento pude comprovar de perto a simplicidade e generosidade de Poveda, que mostrou-se mais uma vez atencioso e simpático. Por fim, este fã retornou à casa com as lembranças de uma noite memorável. Ou, nas palavras que Miguel disse no começo do concerto, com a certeza de que a música é mesmo capaz de tocar e transformar algo dentro da gente.

Luiz Sangiorgio