Melech Mechaya : Uma Aurora Eterna

Para além de alvorada ou da bela e pessoana “antemanhã”, a palavra aurora também significa juventude, mocidade e até infância, a “aurora da vida”. Paralelamente, há muitos anos, os Sex Pistols diziam numa entrevista: “We’re just a bunch of kids and we will never grow up”. Deles todos, só Sid Vicious cumpriu a palavra, de forma trágica. Os outros mentiram. Mas quem parece seguir mesmo à letra essa frase são os Melech Mechaya, a banda portuguesa de klezmer e outras músicas do mundo – e sim, olarecas, isto também inclui o punk, o ska, o free-jazz e até o prog-rock – que, ao fim de dez anos de existência, continua a ter a mesma alegria, a mesma loucura, o mesmo prazer na festa, o mesmo sentido de humor daquele bando de putos que, nos seus inícios, punham toda a gente – incluindo os próprios – a gritar palavras incompreensíveis, a fazer coreografias malucas, a rir que nem perdidos, a dançar incansavelmente. Os Melech Mechaya são ainda assim, em mais e em melhor, tal como ficou mais uma vez provado no concerto de ontem, dia 27 de Dezembro, no Tivoli BBVA, em Lisboa.

Mas há uma coisa em que os Melech Mechaya – que apresentaram neste concerto o seu mais recente álbum, “Aurora” – cresceram e muito: na qualidade, diversidade e intensidade da sua música. A banda deu um concerto absolutamente magnifico, arrebatador e avassalador, sem um único momento daqueles “menos interessantes” que quase todos os concertos (de quase todos os outros) costumam ter. Musicalmente, o quinteto – Miguel Veríssimo (clarinete, saltério, pandeireta, voz, encantador de multidões…), João da Graça (violino), André Santos (guitarra clássica, concertina, laptop e uma muito bem-vinda guitarra eléctrica), João Novais (contrabaixo e voz) e Francisco Caiado (percussões) – cresceu em quantidade, havendo agora uma viagem contínua das músicas e mesmo dentro de cada música por variadíssimos géneros musicais: do klezmer-matriz original ao fado, flamenco, música balcânica, jazz manouche, música turca e árabe, a juntar agora às referidas no primeiro parágrafo e à rebetika, à música de Nino Rota ou de John Zorn, ao indie-rock, à valsa… E cresceram também, e muito, em qualidade: cada um dos músicos domina na perfeição cada um dos seus instrumentos e, em conjunto, estão sempre numa sintonia absoluta… incluindo muitas alturas em que conseguem criar uma autêntica parede de som à maneira de Phil Spector mas com muito menos instrumentos que o (agora) famigerado produtor usava.

Durante o concerto – em que momentos de maior intensidade musical davam facilmente lugar a momentos de pura diversão (no palco e no público), incluindo um espontâneo coreógrafo e o lançamento, literal, do CD “Aurora” (João da Graça cometeu a proeza de o fazer sobrevoar toda a plateia) -, foram apresentados todos os temas do novo álbum, incluindo os que têm convidados: “Boom”, com Noiserv na voz, “Aurora”, com Filipe Melo ao piano, e “Un Puente” em versão instrumental (a voz da espanhola Lamari ficou do lado de lá da fronteira). Mas também uma miscelânea de clássicos klezmer – “Mazel Tov”, “Khosidi” e “Freylach 6.8” – e muitos dos seus outros temas mais conhecidos: a divertida versão do nosso “Chapéu Preto”, “Bulgar de Almada”, “Dança do Desprazer”, “Los Bentos”, “Nigun 7” e “Gente Estranha”. No encore houve lugar para uma belíssima versão de “Dance Me to the End of Love”, de Leonard Cohen – com os Melech Mechaya a ter de novo Noiserv na voz e Filipe Melo ao piano -, “Anachnu Ma’aminim” e, já com toda a gente de pé e a dançar, “Bulgar de Odessa”. Um concerto histórico (e amanhã é na Casa da Música, Porto, com sala esgotada).

Texto: António Pires

Fotos: João de Sousa/Infocul