Cantos de Cego da Galiza e Portugal : Por César Prata

O Fado & Outras Músicas do Mundo desafiou César Prata a escrever sobre o seu mais recente projecto, ao lado do músico galego Ariel Ninas: “Cantos de Cego da Galiza e Portugal”. Uma viagem pelo universo da transmissão oral e musical de notícias antes da massificação dos meios de comunicação. Ou, se se preferir, como ainda ouvir os romances de assassinatos, traições e outras coisas bizarras, importantes ou aterradoras ocorridas nos lados norte e sul da Ibéria Ocidental:

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Apetece ligar o iPad, aceder à Apple Music e fazer o disco tocar. Começar pelo primeiro tema, “Na Feira” e deixar cada um fazer o seu próprio filme. Até ao fim. Mas não… Não é disso que se trata, mas antes de… falar do disco. O desafio é falar, ou melhor, escrever sobre o disco.

Fazer um disco é sempre uma aventura. Sabemos quando começa, mas nem sempre sabemos como e onde vai acabar. Ou melhor… Vamos, em linguagem de GPS, recalculando.

Este disco nasceu em Caminha, em 2015, quando da realização do encontro Tocadores. Apesar de não nos conhecermos, o desafio era dar forma a uma oficina sobre sanfona e canções de cegos. E para isso lá fomos, o Ariel Ninas e eu. Antes, porém, “conversámos” por e-mail e acertámos a estrutura da oficina. Findo o Tocadores apeteceu-nos continuar a desenvolver a temática das canções de cego e foi assim que decidimos gravar um disco.

Hoje as distâncias são relativas. (Seria disto que falava o tio Alberto?) As tecnologias da comunicação podem colocar a Beira Alta e a Galiza tão perto! Podem, mesmo, torná-las vizinhas. E foi isso que aconteceu durante meses. Com os pés assentes numa pasta partilhada na Dropbox e no Ableton Live lá fomos trocando sessões de gravação, acrescentando pistas, cortando aqui e mudando além. Em fevereiro deste ano estávamos prontos! E do meu RequeRec, o estúdio cá de casa, lá saiu mais um disco, registado em três ou quatro dias.

Como diz a canção: “Vieste lá da Galiza / Com vontade de cantar / Trouxeste uma sanfona / E romances de encantar. Como não há uma feira / Podemos, então, gravar / Esta é uma maneira / Da memória conservar.”

E, afinal, que canções são estas?

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“Cantos de cego da Galiza e Portugal”, disco de Ariel Ninas e César Prata, editado em setembro de 2016 por aCentral Folque de Santiago de Compostela, apresenta canções de cegos. Trata-se de um repertório de músicos cegos que ganhavam a vida tocando e cantando em feiras e romarias. Por companhia tinham a mulher, um cão ou uma criança. Habitualmente vendiam folhetos com as letras das canções. De que falavam as canções? Traições, crimes, mortes, casos bizarros; assuntos capazes de chamar a atenção e curiosidade dos que passavam. Assim… Uma espécie de CMTV do tempo.

A primeira vez que tive contacto com este repertório foi em 2003. O meu amigo Américo Rodrigues gravou canções destas junto de três informantes do concelho da Guarda e entregou-me um MiniDisc (RIP!) para eu ouvir e fazer o que entendesse. Fizemos um disco (“Canções do Ceguinho”, 2003). A partir daí, sempre que ia para o terreno fazer recolhas pedia aos informantes para me cantarem canções destas. Aprendi que o povo lhes chamava “quadras” e surpreendi-me com a forma como estavam presentes nas memórias. Em 2010 havia mais canções e apareceu um novo disco, “Canções de cordel”, editado pelo Teatro Municipal da Guarda e parte integrante da coleção “A Ieltsar se vai ao longe” (Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da Universidade Nova de Lisboa).

E pronto! Às canções de cego, com raízes nos romances medievais, juntou-se a sanfona do Ariel Ninas. A sanfona foi um dos instrumentos prediletos dos cegos. E, assim, as canções de cego, realidade que existiu dos dois lados do rio Minho ficaram registadas num disco, no século XXI, coadas pela nossa forma de as cantar.

 

Ah! E já agora! Fazemos concertos! Podem contactar, por exemplo, através de: www.facebook.com/RequeRec/

César Prata

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CANTOS DE CEGO DA GALIZA E PORTUGAL
Ariel Ninas e César Prata
Edição: aCentral Folque | Santiago de Compostela
Setembro de 2016