José Afonso : O Rock, o Fado, o Jazz, o Rap e Outras Músicas Também Celebram o Seu Cancioneiro

Há trinta anos, a 23 de Fevereiro de 1987, morreu José Afonso. E, por razões que são absolutamente óbvias, este número d’O Fado & Outras Músicas do Mundo é-lhe em boa parte dedicado. Noutras páginas, o leitor pode encontrar depoimentos de alguns dos músicos que o acompanharam como Rui Pato, Francisco Fanhais, Janita Salomé e Carlos Guerreiro – por ventura alguns deles não tão óbvios quanto outros mas, também por isso, com coisas novas para dizer -, do seu sobrinho João Afonso, que tão bem tem preservado o seu legado, e ainda uma biografia de José Afonso assinada por Alcides Bizarro. Nesta estão os depoimentos de muita gente do rock, do fado, do jazz, do rap, da música tradicional e erudita – para além de pontes à Galiza e ao Brasil – que já o homenageou e a muitas das suas canções: António Manuel Ribeiro (UHF), Cristina Branco, José Flávio Martins (Frei Fado D’el Rei), Sara Vidal (Luar na Lubre/O Baú/Contracorrente/Espiral/A Presença das Formigas), Marcos Best, Dulce Pontes, Carlos Martins, Luanda Cozetti (Couple Coffee), Leonardo Guichon e Bruno Guichon (Octa Push), Luís Fernandes (Os CantAutores), José Pedro Gil (Outro Tempo, José Afonso) e Élton Mota (Perigo Público). A fechar a página damos também a palavra a Mário Lima (autor do blog Tributo a Zeca Afonso) e Alain Vachier (seu companheiro na Era Nova).

 

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As coincidências que fazem o andarilho – Crossroads

Chamar aqui a encruzilhada do Robert Johnson é um sacrilégio para o purismo que vai sepultando a obra do José Afonso – desculpem, sou assim. Só me interessam as canções e o autor e trabalhar para prolongar a sua existência, a música popular reinventada que nos permitiu um canto colectivo como forma de existir, mais do que resistir (isso é dar força ao agressor) num tempo negro de censura e direitos humanos ceifados. Era por cá assim. Estou nesta encruzilhada e as coincidências só hoje podiam ser lidas; é um texto da frente para trás.

A primeira vez que soube que havia um cantor chamado José Afonso teria 13, 14 anos. A música entrara na minha vida, o meu avô dera-me um pequeno rádio a pilhas e à noite, na cama, enganando a vigilância da minha mãe (as aulas obrigavam-me a levantar cedo), ouvia com um auricular o fio das canções que alguns programas da Rádio Renascença produziam muito acima no nacionalismo bacoco da cançoneta. Se o Rádio Clube Português tinha o ‘Em Órbita’ e o ‘Dois Pontos’, sobretudo com a grande música anglo-americana, na RR havia o ‘Página Um’, a ‘23.ª Hora’ e o ‘Tempo Zip’, onde apareciam surpresas em português. Uma noite apanhei uma musiquinha chamada “Os Vampiros”, o locutor não disse que era música de intervenção e o nome do cantor, José Afonso, passou a correr. A Renascença, ligada ao patriarcado católico, tinha outro estatuto, ou então, os da censura (depois ‘exame prévio’) dormitavam o sono dos burros. Felizmente.

Lembro-me de no dia seguinte estar na minha carteira do liceu de Almada, secção do liceu nacional D. João de Castro (Lisboa), junto à janela ampla, a olhar a folha onde tentava rabiscar umas rimas parecidas com aquilo que ouvira em pouco mais de dois minutos na noite anterior. Tocara-me sem saber muito bem porquê. A voz sofrida? As palavras estranhas? Algo acontecera.

Olhava o asfalto do recreio, depois a folha pautada do caderno, controlava o professor que não desconfiava do meu devaneio, mas nada de jeito saía da BIC azul. Eu nunca escrevera uma rima de poesia até então, e não seria nesse dia que a porta se abriria para mim.

A canção feneceu, nunca mais a ouvi. Ou a censura actuou a contento pressionando no confessionário os arranjadinhos costumes brandos, ou o locutor ganhou medo. Era normal e humano.

Passariam quatro anos, por altura das eleições ‘livres’ de 1973, quando José Afonso foi anunciado boca a boca na cidade que iria estar numa sessão de esclarecimento da CDE (oposição democrática) na sala de dança da Incrível Almadense, em Almada. Fui com um amigo, o Alfredo, mais tarde baterista dos Iodo.

Não chegámos a horas, havia gente na rua à volta do quarteirão junto aos Paços do Concelho, uns vigiando os outros, os do reviralho versus os da ordem estabelecida – eram estranhos. Entrámos desconfiados na sala, alguma confusão no átrio, passámos ao salão e vi e ouvi metade de uma canção do Zeca, como lhe chamavam. Alguém o tirou de repente do palco, os músicos acompanhantes seguiram-no e desapareceram todos por detrás do pano do fundo.

Só oito anos depois, na tarde do dia 13 de Fevereiro de 1981, quando os UHF ensaiavam para o concerto dessa noite na mesma sala, depois de desabafar a história com um dirigente da colectividade, me explicaram ‘a fuga’. Mostrou-me a escadaria estreita por onde retiraram o José Afonso, subindo para o bar da sala de cinema que dava para as traseiras, escapulindo-se a tempo dos pides que entravam pela porta da frente do salão de dança.

Entre 1980 e 1982 os UHF tocaram algumas vezes no mesmo palco com o autor de “Grândola, Vila Morena”. Poucas palavras trocámos, e nunca fui seu amigo. Assisti à tragédia da sua doença e à falta de recursos financeiros para sobreviver com dignidade – o porreirismo das sandes de chouriço e copos de três fizeram a sua época e usaram o homem e o artista. Um cantor tem de ser remunerado pelo seu trabalho.

Estava a viver em Oeiras, na casa da minha namorada, quando, no dia 23 de Fevereiro de 1987, ao final da tarde regressei sozinho das minhas tarefas. Liguei a televisão para ter companhia, saí da sala e voltei de imediato quando ouvi a voz ímpar do José Afonso em entrevista. Não hesitei, sabia: ele morrera. E as homenagens começavam lestas. Incluindo a televisão pública, aquela que ainda é dos portugueses por ser por eles paga, que colocava no ar o homem que há muito impedia – o esquecimento é uma forma tenebrosa de censura – de se apresentar no ecrã, aquele que era o autor da senha que confirmara o golpe de estado dos capitães, em Abril de 1974, que nos devolveu a liberdade.

Quando em 1994, por altura da celebração dos 20 anos sobre a mudança do regime político, o Manuel Faria (pianista dos Trovante) me ligou a convidar para o projecto “Filhos da Madrugada”, aceitei antes de ouvir a canção indicada para os UHF: “A Morte Saiu À Rua”. Só depois percebi que estava metido numa camisa de sete varas, mas a canção dizia-me muito. Tocar na obra de um génio (é assim que o vejo, mas sei que ele fugiria da classificação – que me perdoe) é arriscado, mas não tenho pejo em dizer que nos saímos bem, numa altura conturbada dos UHF em que 3/5 da banda não falava com os restantes 2/5. Eu não queria imitar José Afonso, queria ‘ler’ a sua genialidade.

Contudo – prosseguindo a encruzilhada dos andarilhos –, em 1987, nessa tarde em que senti vergonha da hipocrisia oficial que nos tolhe, escrevi de rajada a canção “Nove Anos”, que iria abrir o LP “Noites Negras de Azul”, editada na primavera de 1988, e que fala do efémero que é a vida do trovador por entre equívocos, sucesso, esquecimento: a canção é-lhe dedicada. Na versão acústica dos “Nove Anos”, que integra a reedição do CD “Porquê?” (2011), foram acrescentadas cinco estrofes que contam tudo.

A capa do LP “Noites Negras de Azul” (anotem as coincidências) é uma fotografia de um painel da pintora Teresa Dias Coelho, filha do ‘pintor’ de que fala o poema “A Morte Saiu à Rua”, José Dias Coelho assassinado pela PIDE. A Teresa, que eu não conhecia, só permitiu que se fotografasse o painel para a capa do LP depois de conhecer o conteúdo do disco. Passámos um nervoso fim de tarde com ela nos estúdios Valentim de Carvalho de Paço de Arcos: aceitou. Aplauso para o António Manuel Rolo Duarte, meu editor e amigo já desaparecido, que juntou todas as vontades – é sua a visão da capa.

Ao longo dos últimos anos, junto com os UHF, tenho reinventado algumas das canções que muito me dizem do José Afonso. “Grândola, Vila Morena”, com as vozes de José Jorge Letria, Vitorino, Manuel Freire e Samuel (2007), companheiros de cantigas do autor e meus amigos, “Vejam Bem” (2010), “Era de Noite e Levaram” (2014), “Os Vampiros” (2014 – finalmente) e ainda este ano iremos gravar, e já estamos a rodar ao vivo, “Traz Outro Amigo Também”.

Quando anuncio em palco uma canção do José Afonso afirmo que um homem não morre, parte, e a obra que nos deixou prolonga a sua existência entre nós. É isso que queremos levar aos mais novos, canções de outro tempo que não têm data certa. Pertencem-nos.

Última coincidência, descoberta há poucos anos. Nascemos no mesmo dia, no calor de 2 de Agosto.

António Manuel Ribeiro (UHF)

 

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Cantar Zeca – como o fiz no disco “Abril”, em que interpreto dezasseis temas do seu cancioneiro – foi, e será sempre, olhar de frente um homem que soube, através da aparentemente simples forma de fazer música, mostrar a alma, fazer o seu caminho e inspirar multidões. As suas canções são História, são retalhos da vida portuguesa por vezes tão ou mais valiosos que um qualquer compêndio.

Cristina Branco

 

 

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Escrever sobre Zeca Afonso e sua influência na música dos Frei Fado D’el Rei, é ao mesmo tempo fácil e difícil, mas é sem dúvida alguma um grande privilégio. Zeca Afonso foi e será sempre um humilde Génio da Música de intervenção Portuguesa e onde desde sempre exerceu uma forte influência na música que fomos fazendo, não só pela sua forma simples de melodias que fazem lembrar por vezes a música medieval ou mesmo as cantigas de amigo, quer pela atitude na escrita com uma mestria de figuras de estilo muito bem aplicadas e com a sua heroína inofensiva e bem eficaz.

Zeca Afonso possuía na voz algo de intenso e misterioso, cantava com uma simplicidade que conquistava multidões, a sua forma de compor plena de melodias belíssimas e ao mesmo tempo complexas, foi muito determinante na música dos Frei Fado D’el Rei, onde se vivia esse ambiente acústico e harmonioso dos cordofones, com letras a fazer lembrar as cantigas de amigo e de amor, e que depois eram mescladas com instrumentos mais modernos como os teclados e oercussões programadas.

Participar no álbum “Filhos da Madrugada” em 1994 e depois ser Prémio Zeca Afonso em 2008 com o CD “Senhor Poeta”  – integralmente constituído por versões de temas de José Afonso – , foi sem dúvida aquilo que vale apena na música, pois saber que temos um pouco de Zeca na nossa história como músicos e compositores, é uma grande Honra.

Viva Zeca Afonso…

José Flávio Martins (Frei Fado D’el Rei)

 

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Na minha infância (década de 80), a música de José Afonso foi uma presença assídua em casa, a par de outros cantautores da sua época. Mal saberiam os meus pais que estavam a semear uma das grandes influências no meu percurso musical e que esta presença se prolongaria pela vida fora.

Não foram apenas discos antigos, de um senhor de óculos grandes, de quem a maior parte dos meus colegas de escola nunca tinha ouvido falar. Foram, sim, horas e horas de músicas, que inevitavelmente me despertaram para a música popular portuguesa, para o fado de Coimbra, para a mensagem guardada nas suas palavras.

Em 1994, já todos fomos “Filhos da Madrugada”, mas só anos mais tarde é que teria consciência da dimensão da herança musical e intelectual de José Afonso. Foi em 2004, numa noite de fados em Ferrol (Galiza) com alguns companheiros meus de faculdade, que acabou em grande ambiente de festa, com todos os galegos presentes a cantarem músicas tradicionais portuguesas e um vasto reportório de José Afonso, sem falhas de memória nas letras. E nós, portugueses, completamente surpreendidos e rendidos ao que estávamos a assistir: uma total admiração e conhecimento pela nossa cultura, que muitas vezes nós próprios desvalorizamos ou, simplesmente, não conhecemos.

Não se julgue que este foi apenas um episódio pontual. Ao longo de 9 anos da minha vivência na Galiza, esta situação repetiu-se invariavelmente em diferentes contextos e ainda hoje podemos respirar o legado de grande consciência social e humana de José Afonso. No outro lado do Minho, podemos falar de uma verdadeira apropriação cultural.

O mais interessante é constatar que, pela sua força, este legado continua a provocar emoções e que as músicas de José Afonso não perdem a sua actualidade com o passar do tempo. Pelo contrário, dão motivação a novas formas e versões, o que tem sido uma constante ao longo do meu percurso, em diversos projectos musicais: “Tu Gitana” (Luar na Lubre, 2005 – 2011); “Carta a Miguel Djé Djé” (juntamente com Vitorino no espectáculo Terra da Fraternidade/ ACERT, 2012); “Achégate a min Maruxa” (O Baú, 2012); “A morte saiu à rua”, “Cantar Alentejano” e “Teresa Torga” (Contracorrente, 2012 – 2015), “Tu Gitana” (Espiral, desde 2012) e “A Presença das Formigas”, “Senhora do Almortão” (A Presença das Formigas, desde 2013).

Aquém e além Minho, José Afonso é um nome maior. Que não haja dúvidas disso.

Sara Vidal (Luar na Lubre/O Baú/Contracorrente/Espiral/A Presença das Formigas)

 

José Afonso_Marcos Best

José Afonso foi, para mim, um dos maiores artistas e personalidades Portuguesas do último século. Um homem simples e humilde dotado de uma extrema sensibilidade e capacidade de transformar a vida quotidiana em Poesia. Deu voz a quem não a tinha, denunciou injustiças, sem nunca se esconder usou a música como arma na luta pela liberdade e ousou alimentar sonhos de mudança por um mundo melhor num tempo em que sonhar era perigoso.

Sem qualquer tipo de receio, coloco José Afonso ao nível de Bob Dylan, Bob Marley ou Johnny Cash; grande contador de histórias com uma musicalidade única e apaixonante mas de tudo o que sinto mais falta é sem duvida da sua pessoa, a força que tinha e a coragem para assumir posições, para dizer “Eu estou aqui, Eu sou assim e Eu vou lutar por isto…”. Um forte carácter que não o deixava curvar-se mesmo em meio a difíceis circunstancias, e embora inúmeras vezes pensasse ser o fim a sua integridade impedia-o de ficar calado face a injustiças. Sinto falta de Homens assim, figuras que nos inspiram – a mim, pessoalmente, em “Voz de Abril”, em que usei um sample de “Era de Noite e Levaram” – e alimentam a alma, pessoas “Humanas” com falhas, com erros e quedas mas com um génio tremendo que torna tudo o resto pequeno.

Um homem que repudiava a guerra e todo o tipo de exploração, que mesmo sem nunca se afirmar como um músico de intervenção enfrentou todo um regime político apenas com a sua voz e algumas palavras, desafiou toda uma mentalidade medrosa e acomodada, driblou a censura, não fez do cifrão a sua bússola e nem as paredes de betão em Caxias silenciaram a sua voz .

Vejam bem que no meio de Homens Bravos, Vampiros e Tribunais, ele percebeu o que Faz Falta e tornou-se Maior que o Pensamento.

Marcos Best

 

JOSÉ AFONSO - DULCE-PONTES-2

O meu Zeca, o nosso Zeca é um visionário, sem dúvida. Abriu muitas portas, mostrou novos caminhos, descobriu novos planetas musicais. É para mim, uma enorme inspiração poética e de pensamento. Não foi amado como deveria, tenho essa sensação. Tenho muita pena de nunca o ter conhecido pessoalmente, mas já o cantei muitas vezes (Nota: Em disco e/ao vivo Duce Pontes já apresentou versões suas de variadíssimos temas de José Afonso, ou tradicionais por ele popularizados como  “Se Voares Mais ao Perto”, “Que Amor Não me Engana”, “As Sete Mulheres do Minho”, “Achégate a Mim Maruxa”, “Os Índios da Meia Praia”, “Resineiro”, “Senhora do Almortão”, “O Meu Menino É d’Oiro”, “Grândola Vila Morena”, este já no novo álbum “Peregrinação”, entre outros, para além de um original seu, “O Primeiro Canto”, lhe ser dedicado). Depois dele nunca houve outro Zeca; nunca poderá haver outro Zeca. Há um antes e um depois dele… E há um durante, que é o mais importante.

A sua influência no meu trabalho reflecte-se tanto na forma de compor como na forma de escrever. Como ele e outros diziam, a canção tem que ser uma arma e eu levo isso muito a sério. De uma forma, certamente, diferente, mas seguindo a mesma linha, que de uma forma talvez enviesada está muito inspirada nele. Tenho muitos temas – alguns que nunca viram a luz – muito inspirados na sua forma de compor, em tudo aquilo que ele transmitiu. E a forma como ele foi (re)descobrir, revelando e desvelando, a música tradicional sempre foi, também,  imensamente inspirador para mim.

Dulce Pontes

 

Carlos Martins, Lisboa 15 Fevereiro 2006.

A minha ligação ao Zeca aconteceu em vários momentos e dura até aos dias de hoje. Em primeiro lugar porque vivi em Grândola e como sabemos muita da imagem desta “Vila Morena” está refém da música do José Afonso. Ainda em Grândola tornei-me aprendiz de música na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, local onde José Afonso fez a sua primeira aparição pública naquela terra. Ouvi depois do 25 de abril inúmeras estórias de conterrâneos meus sobre as suas “viagens à esquerda” feitas antes da Revolução em várias reuniões e actividade tão subversivas como reunir em grupo para discutir a situação política de um país, beber um copo e cantar umas modas.

Enquanto jovem comprometido com o processo revolucionário fui cantando e ouvindo a música de Zeca Afonso em ocasiões onde a música tinha um papel central na formatação e divulgação de conteúdos políticos. Assisti ainda em Grândola à renúncia da legitimidade de Zeca por forças antes aliadas do cantor só porque este não seguia as regras partidárias. Retenho a sua doçura e aparente paciência perante estas questões já naquela altura. Retive depois a sua verdadeira paciência perante a doença e o seu doce inconformismo perante o rumo do processo mornamente revolucionário.

Nessa altura participei na gravação do seu último CD, “Galinhas do Mato”. Depois dessa gravação, onde o Zeca tinha um sistema de som na entrada do estúdio porque já não podia descer escadas, nunca mais parei de admirar o homem com quem falei um pouco mais no fim da minha sessão como músico de naipe de sopros. Que serenidade e aceitação. Depois conheci de perto a Zélia Afonso e os filhos e as estórias mais intimas vieram reforçar essa imagem de grande beleza que o Zeca manteve ao longo da vida. Sempre admirei as suas composições, a simplicidade das soluções e a beleza que lhe ensinou a música para replicar na vida.

Comecei a trabalhar a sua música, com dança, em espectáculos inspirados na sua pessoa e nas suas criações, na minha música e nalguns concertos e gravei algumas versões da sua música em CD, nomeadamente no álbum “Sempre”, de que me orgulho. “Maio Maduro Maio” é, dessas canções, a que mais gosto de entre outras músicas maravilhosamente orgânicas. Realço também as influências africanas na sua música lembrando que essas influências tornaram a sua música ainda mais universal. De volta a Grândola reconheço que a falta de celebração da memória sobre a vida de José Afonso sofre da ingratidão da nossa inteligência e da hipocrisia do nosso coração e é a prova da nossa dificuldade em criar comunidade e espirito de cidadania colectiva. É necessário lembrar Zeca Afonso e continuar a resistir aos facilitismos e oportunismos da vida ultra liberal dos nosso dias.

Carlos Martins

 

JOSÉ AFONSO COUPLE COFFEE - A BANDA QUE GRAVOU COM AS TAMANQUINHAS DO ZECAcouple-coffee-band-840x440

sabe zeca,
nesses últimos dias tenho falado muito em ti.
chegam essas datas redondas de nascimento e morte
e todos nós nos lembramos mais de quem partiu.
os mal-humorados reclamam e dizem:
-só nessas datas!
eu que sou bem-humorada por natureza e insistência
acho ótimo e com o maior prazer reafirmo todo o amor
e gratidão que tenho por ti.
gratidão, porque a tua canção sobre o meu pai, o teu amigo Alípio,
rompeu o silêncio e derramou uma luz tão intensa sobre a
vida dele que ilumina a minha também.
e amor, porque quando ouvi a tua música, eu ainda não sabia, mas estava
selando contigo um pacto amoroso, cúmplice de cantar pró maior número
de pessoas possível o que tu ainda dizes.
meu ofício de intérprete é esse.
lembrar a malta que se eles por exemplo quiserem saber o que tu dirias do
donald, el trampa, é só ouvir “como se faz um canalha”, no disco “co’as minhas tamanquinhas”… rss!
estás por cá, mais do que nunca.
e eu, enquanto estiver nesse mundão que um dia não há de ter “muros nem ameias”,
vou te cantar até que a voz não me doa mais.
porque tuas canções são p’ra curar,
mesmo que às vezes ardam um pouquinho…
30 anos sem ti?
p’ra mim, não.
um beijo carinhoso
Luanda ,a rapariga da canção,
que virou uma mulher que tem a alegria e honra
de entoar as tuas “trovas e cantigas muito belas”.

Luanda Cozetti (Couple Coffee)

 

JOSÉ AFONSO OCTA PUSH COM GOSPEL COLLECTIVE LIBERDADE - 2

A nossa relação com José Afonso talvez comece na nossa infância. O Zeca era um bocado como aquele “gajo” amigo dos pais que ia lá a casa e nós simpatizávamos com ele. Não percebíamos do que falava mas gostávamos de o ouvir e a nossa mãe falava-nos muito bem dele,que era um bom homem.

Na adolescência já o samplavamos, tentando encontrar aqui e ali bocadinhos de instrumentais sem voz que encaixassem nas nossas produções caseiras de hip-hop, electrónica e afins. O “Cantigas de Maio” foi demasiado cortado e colado e possivelmente ainda andarão loops do Zeca em CD-Roms de backups de algum de nós (ou de ambos).

Ele sempre lá esteve, mesmo que o nosso interesse inicial fosse apenas pela sua obra e não por aquilo que era, e talvez tenha sido esse também uma das grandes virtudes do Zeca, cativar gerações.

Ficando mais velhos e começando a ter outra consciência social, começámos a dar valor ao Zeca como Homem, o Homem que através da música lutou, reivindicou e se misturava (numa altura em que na televisão a mistura se dava mais na zona capilar com “pretos de cabelo louro e brancos de carapinha”).

Na música de Zeca havia darbukas, tamborins brasileiros, adufes, ngonis, juntamente com apitos de fole, acordeão e tantos outros instrumentos portugueses, brasileiros, moçambicanos, etc..

Quando estávamos a criar o disco “Língua” já havia conceito e muita filosofia daquilo que o Zeca fazia, mas ainda não havia O Zeca. Essa versão surge após um de nós partilhar por e-mail ao outro o tema “Galinhas do mato” como curiosidade, e como uma forma de chamar a atenção ao outro que essa música representava um pouco daquilo que estávamos a fazer. Era fusão e vontade de fazer algo diferente. A partir de ali pensámos que seria bonito ser o Zeca a fechar a cortina do “Língua”.

Apesar de ser uma versão de um tema, quisemos chamar-lhe simplesmente “Zeca”, pois era assim que era e é chamado por todos.

A participação do Gospel Collective acaba por ter uma história engraçada dentro de um contexto já mais sério.

Nessa altura estávamos num processo de autorização com a SPA e respectivos herdeiros, e as coisas estavam a demorar aquele tempo que sempre demora quando são várias as partes a decidir. Durante esse processo surge um convite para participarmos no evento “Liberdade Já” para os presos políticos em Angola. Ainda com a versão instrumental, resolvemos tocá-la no concerto. Como foi um evento aberto a colaborações e como os Gospel Collective também lá iam cantar, resolvemos convidá-los para nos acompanharem nesse tema ao vivo. Parece um bonito acaso, não parece?

O resultado agradou a todos e após a autorização, resolvemos convidar o Gospel Collective para gravar e para de alguma forma ficarmos com esse registo.

Gratos pelo Gospel Collective e pelo Zeca.

Leonardo Guichon e Bruno Guichon (Octa Push)

 

Os CantAutores _ d'Orfeu AC

Na pré-adolescência ouvi, vezes sem conta, o vinil “Fura, Fura” do Zeca. Foi na loja do meu pai, que era uma loja de tudo. De bicicletas, de carrinhos de bebé, de parafusos, de óleos industriais, de instrumentos musicais e de toda a sorte de utilidades do lar. A certa altura, havia também aulas de música naquela amontoada loja, além de explicações de português e matemática dadas pela minha mãe, curandeira dos maus estudos de várias gerações de garotos que ouviam certamente má música.

Nesse ambiente misturado, nas poucas horas mortas de um comércio que ainda era vivo, o velho gira-discos NEC debitou as estranhas misturas desse génio José Afonso, comigo longe de lhe atribuir importância que não a dos meus ouvidos. Com candura e rasgo, África e Beira Baixa, folclore e intervenção, ele era música tão bem acamada como tudo quanto havia na loja. Era sempre possível caber algo mais.

Temas desse disco como “De Não Saber o que me Espera”, “De Quem Foi a Traição” ou “Na Catedral de Lisboa” foram dos que, mais tarde, recriei para o Ciclo “Os CantAutores” (2001-2006), com muitos concertos pelo país em digressões de boas memórias e um disco homónimo que enche de orgulho todos os que nele participaram. “Os CantAutores” vão regressar, em abril deste ano 2017, para uma mini-tour de alguns concertos. A loja do meu pai já não existe, mas a música que eu lá ouvi continua a caber em todo o lado.

Luís Fernandes (Os CantAutores)

 

outro tempo - josé afonso

Falar sobre a obra de José Afonso e sobre os 30 anos passados do seu desaparecimento é uma tarefa difícil para quem como eu tem revistado a sua obra praticamente todos os dias.Vivo com a convicção que estaria para vir muito mais música e muito mais poesia com uma qualidade rara de se encontrar na nossa história. Mas aqui fica uma breve apresentação do que, em Outro Tempo, José Afonso, nos propusemos fazer nesta nossa pequena homenagem a este grande Homem, tomando como minhas algumas palavras escritas por Gonçalo Felgueiras e Sousa:

“Outro Tempo, José Afonso é um Projeto de autor de José Pedro Gil e de Emanuel de Andrade, com orquestração deste último e interpretado por um Ensemble Orquestral composto por um Quarteto de Cordas, Piano, a que se junta o instrumento Voz. (…) Surgiu a ideia e a vontade dos autores e intérpretes deste disco de porem os seus talentos e diferentes conhecimentos e estilos musicais ao serviço da arte de José Afonso, interpretando-a, experimentando-a e redescobrindo-a à ‘luz’ de uma sonoridade mais clássica e menos ortodoxa, se se pensar nos instrumentos para os quais essa arte foi pensada e originariamente executada, ou habitualmente ouvida noutras interpretações.

Escolher as músicas de entre um reportório tão rico, diversificado e cativante como é o de José Afonso, chegando a uma seleção que pudesse por um lado representá-lo e por outro homenageá-lo, seria sempre um processo subjectivo e necessariamente redutor. Procurou-se escolher canções que representassem as várias vertentes e linguagens da obra de José Afonso como o Fado, a Canção Popular, o Surrealismo, ou simplesmente a Poesia posta em canção, e que sob novas roupagens musicais, deixassem ainda assim ‘à vista’ a matriz musical que lhes dá força há várias décadas. 30 anos depois da sua morte, é revelador do génio, da força e da influência de José Afonso, que a sua arte continue a embalar velhas e a despertar novas gerações, perpetuando-se e regenerando-se, sem que se apague a chama que continua a dar vida a noites (e dias) inteiros”.

José Pedro Gil (Outro Tempo, José Afonso)

 

josé afonso - perigo público

No Comboio Descendente:

nestas quadras vão notícias para quem está mal informado
o comboio de Palmela nunca veio atrasado
hoje os tempos estão mudados mas a luta continua
desde aquele dia em que o povo saiu à rua

pescadores lá do mar alto mineiros da nossa terra
lágrimas no mar são lembranças da nossa guerra
há quem fale da pátria eu falo da honradez
o conceito não é novo mas faz um bom português

venham mais duas ou três ou venham mil
nunca se esqueçam por que razão se fez abril
Balada de Outono:

que chorem os céus sempre que as andorinhas se calem
que os rios que correm trazem sonhos que não morrem
se por medo houver silêncio nós gritamos por desordem
prós lados do mar calam-se os pássaros mas não se calam os homens

se por medo houver silêncio nós gritamos por justiça
se a justiça fizer silêncio nós gritamos para que acordem
que o temor e a preguiça não sejam palavras de ordem
lá para os lados do mar onde se calam os pássaros mas não se calam os homens

Os Vampiros:

se não nos deixam sonhar
não os deixamos dormir

Menino do Bairro Negro:

eu vi-os de pé no chão calção rasgado
a fugir do papão que não entendeu o recado
se o povo quer pão sai à rua e muda o fado
se o sol não brilhar no bairro não brilha em nenhum lado

Sete Fadas me Fadaram:

nem com a bênção das sete fadas eu vi sete facas sete marcas sete estacas
se era o meu destino eu disse sete vezes não
sete homens maus com sete paus na mão
sete dias na prisão sete aves maria sete fadas sem condão

Élton Mota (Perigo Público)  (variações sobre poemas de José Afonso)

 

JOSÉ AFONSO - TRIBUTO A ZECA AFONSO

Diz Fausto: «Em 1975, o MFA convida-me a mim, ao Zeca e ao Adriano para irmos a Angola. Fomos cantar e tocar em sessões prioritariamante dedicadas aos soldados portugueses que lá estavam, com os acordos de Alvor ainda frescos (Janeiro de 1975). O espetáculo na cidadela de Luanda teve mais de vinte mil pessoas. Além de nós, atuaram o Rui Mingas, o Tonito, Lamartine (Carlos) e um conjunto angolano, Merengue. Viajávamos num avião da Força Aérea e fizemos espetáculos em Cabinda…» (in Zeca Afonso – “Livra-te do Medo” de José A. Salvador)

E foi em Cabinda que conheci Zeca Afonso. Tinha vindo da floresta do Maiombe, de Tando Zinze propriamente dito onde tínhamos o aquartelamento, aquartelamento esse que foi entregue ao MPLA. Aguardava no B.Caç.11 (Gorilas do Maiombe) embarque para Luanda onde iria passar à disponibilidade quando fomos convidados para irmos ao Cinema Chiloango onde iriam cantar o Zeca, Fausto e Adriano. Já ouvia Zeca do qual tinha alguns discos e muitas cassetes com música dele. Nessa época não me apercebi que Zeca era uma “persona non grata” para o Estado Novo, pois em Angola a influência da PIDE era muito discreta e nem sabia que existia. Ouvia as canções do Zeca sem problemas e na tropa até parodiávamos com os nossos superiores cantando a “Ronda dos Paisanos” mas com letras nossas as quais já não me lembro.

O Cinema Chiloango estava apinhado de soldados. Eu sentei-me fardado na escadaria que dava acesso ao palco. “Trova do Vento que Passa”, “Os Vampiros” e tantas outras canções que ouvia no meu gravador, passaram por aquele palco. Última canção… “Grândola, Vila Morena”. Aqui o Zeca pediu para quem quisesse, subisse ao palco para cantar. Mal tinha acabado de dizer isto já eu estava com o meu braço enlaçado no dele. E foi assim que em janeiro de 1975 “conheci” o Zeca.

Até 2014, de Zeca Afonso só conhecia as suas músicas tendo-lhe feito uma página musical que me demorou 8 anos a fazer. (2007/2015). Ao integrar-me no FB “Grupo de Amigos de José Afonso” é que me apercebi que havia mais, muito mais, sobre a Vida e Obra do Zeca. Mas aquele FB não tinha os requisitos para o que desejava; falar exclusivamente, sobre tudo a que Zeca dizia respeito. Assim criei o meu próprio FB, onde só é permitido “falar” de Zeca. Assim nasceu o meu “Tributo a Zeca Afonso”. Muitos inéditos foram já conseguidos. Muitos outros foram prometidos, mas até hoje as promessas não passaram de intenção. Mas não há que desanimar, o caminho faz-se caminhando. Com boa vontade de poucos, muito se consegue. E é nesse sentido que o ‘Tributo’ irá continuar. (…)

Nos Cantos Livres, cantando em locais inimagináveis, Zeca foi a voz do povo. Foi um homem humilde, honesto, solidário, que deu o melhor de si: «Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é que fica»… e está tudo dito.

Mário Lima

 

alain vachier - pose - para o josé afonso

Quando me pediram este depoimento, lembrei-me de muitas histórias, mas escolhi o seguinte episódio:

Aconteceu em 1980 durante uma campanha para as eleições legislativas. José Afonso, nestas eleições, apoiava a UDP na Madeira, o PS na Fuseta e a APU na Marinha Grande.

Como sócio da Cooperativa ERA NOVA (entidade que representava José Afonso, Sérgio Godinho e Vitorino, entre muitos outros) e como tinha uma carrinha, levei o Zeca e os seus músicos, Júlio Pereira, Sérgio Mestre, Janita Salomé a um comício na Marinha Grande, terra conhecida por uma forte tradição operária. O Guilherme Inês foi pelos seus próprios meios.

Chegámos ao local, um pavilhão com péssima acústica e equipamento de som sofrível, cheio de simpatizantes e militantes da APU, na sua maioria homens (nesse tempo e mesmo depois do 25 de Abril, as mulheres não tinham ainda conquistado todos os seus direito… mas esta e outra história).

Não me lembro do comício, mas guardo na memória a excelente actuação do Zeca e dos seus músicos (por sinal seria umas das primeiras actuações com essa formação) No fim do concerto Zeca ficou sozinho em palco e com a sua guitarra e cantou “Cantar Alentejano” música dedicada a Catarina Eufémia, e quando terminou a multidão que enchia o pavilhão levantou-se em bloco, e como palavra de ordem gritou galvanizada “ UNIDADE” durante uns longos minutos.

Não fui o único a ficar emocionado. A maioria dos presentes não conseguiu conter as lágrimas, perante esse momento único e especial.

O Zeca era assim: um homem íntegro, fraterno e solidário.

Um homem sem muros nem amarras.

PS: Quero ainda dizer, que o ter conhecido, ter tido o privilégio da sua amizade e de ter trabalhado com ele, contribuiu para ainda hoje estar em Portugal e considerar este pais também meu.

Alain Vachier

(depoimentos, gravados ou escritos, recolhidos por António Pires)