Breve História da Viola Braguesa, por Luís Silva : A Propósito de “Moda Velha” (Disco de Chico Gouveia)

Nos últimos anos tem havido cada vez mais grupos de música tradicional a usar a viola braguesa nos seus concertos e discos (Macadame, Marafona, Deolinda, Toques do Caramulo…), reconhecidos novos e antigos cultores do instrumento (Aurélio Malva, da Brigada Victor Jara, Amadeu Magalhães, Vasco Ribeiro Casais ou Luís Peixoto, por exemplo) e até gentes de outras áreas a usá-la (B Fachada, que até tem um EP com esse nome, mas também Diabo na Cruz ou Budda Guedes, dos Budda Power Blues). Mas a verdade é que, desde o histórico álbum “Braguesa” (1983), de Júlio Pereira, a viola braguesa só agora, com “Moda Velha”, de Chico Gouveia, volta a ser protagonista de um disco. Nesta página, O Fado & Outras Músicas do Mundo, partilhamos o texto sobre a história da viola em Portugal que Luís Silva, médico e instrumentista de braguesa (e cavaquinho), assinou no livreto de “Moda Velha”. E ainda lhe pedimos um texto inédito: a sua apreciação pessoal acerca desse disco.

 

braguesa_vihuelaAté cerca do séc.XVI, a estrutura básica das guitarras Latina e Árabe, era composta de corpo, braço e cravelhal. Em Portugal o termo viola é usado desde meados do séc. XV, para caracterizar instrumentos de corda com braço. No entanto, foi também a partir do séc. XV que a viola se vulgarizou, difundindo-se entre os povos mais ocidentais de Portugal, sempre a acompanhar cantares amorosos (romances) e folclóricos, com toque rasgueado: uma parte melódica cantada sobre acompanhamento de acordes (E. Pujol).

Gil Vicente (1465-1536), na sua obra literária faz referências à viola como sendo instrumento de escudeiros. Os procuradores da Câmara de Ponte de Lima, numa carta às cortes de Lisboa (1459), mencionam os malefícios causados ao reino pelos tocadores de viola. Em 1582, Philipe de Caveral faz referência a “dez mil guitarras” que acompanharam a campanha militar de Alcácer Quibir no Norte de África, e que lá ficaram como despojos de guerra. Fernão Mendes Pinto na sua obra Peregrinação (1538), apresenta Gaspar de Meireles como tocador de viola.

O frade espanhol Juan Bermudo, na sua Declaracion de Instrumentos Musicales (1555), apresenta extensa informação acerca da viola de mão. Refere que vihuela e “guitarra” são derivados da guitarra latina, tendo a forma de oito, com encurvamento pouco pronunciado, fundo chato paralelo ao tampo, escala com dez trastos rente ao tampo, com 4 ou 5 ordens de cordas, sendo de tripa e bordão na vihuela destinada à música erudita, e de metal e bordão na “guitarra” destinada ao repertório popular. No entanto, é no Regimento dos Violeiros de Lisboa (1572) que nos chega a informação mais completa sobre técnicas de construção da viola de mão de corda dedilhada e rasgueada.

O único exemplar de “viola portuguesa quinhentista” que chega até nós, foi construída em Lisboa no ano de 1581, a famosa viola de Belchior Dias, que presentemente está no Museu do Royal College of Music (Londres). Esta viola possui cinco ordens de cordas, escala rasa ao tampo e com dez trastos. Do séc. XV ao séc. XVIII, a viola aparece representada em iluminuras, pinturas e esculturas de pedra e de barro (especialmente em figuras do presépio) e na azulejaria portuguesa dos séculos XVII e XVIII.

No Norte de Portugal, a indústria violeira localizou-se outrora na região de Guimarães, facto noticiado desde 1632, pela obrigatoriedade de acompanhamento nas procissões religiosas, sob pena de multa. Contudo só em 1719 é publicado o Regimento dos Violeiros de Guimarães onde há menção da viola de vários tamanhos.

O primeiro método de ensino de viola data de 1789, chamando-se Nova Arte, da autoria de Manuel Paixão Ribeiro. Em 1826 é editado outro, o Método Prático de Conhecer Acordes na Viola, de Simplício M. M. Pinto, vocacionado para o ensino da viola como instrumento de acompanhamento. Na obra, Os Músicos Portugueses (1870), de Joaquim Vasconcelos, é referido pela primeira vez o termo Viola de Arame, devido á natureza das suas cordas em aço, não que antes não as houvesse já de metal.

A Viola de Arame Portuguesa que chegou até nós, é da autoria do violeiro português José Sanhudo, data de 1876, e trata-se de uma viola de cinco ordens de doze cordas, do grave para o agudo (3+3+2+2+2), dez trastos em escala rente ao tampo, típica e muito usada no meio popular. Lambertini, em 1902, também refere a Viola de Arame de cinco ordens com as mesmas doze cordas.

A Viola Braguesa

BRAGUESA_2A “viola braguesa” é uma viola de carácter popular da região Noroeste de Portugal, herdeira da viola de arame já descrita. Era destinada ao acompanhamento do canto ou integrada em rusgas, juntamente com outros cordofones populares (cavaquinho, violino, violão) nas danças populares (chulas, malhões, viras), conforme se pode ler em texto anexo de 1926 do Cancioneiro Minhoto de Gonçalo Sampaio (1940).

É uma viola de corpo cintado, com ligeiro encurvamento, medindo cerca de 90 cm, dos quais 45 cm pertencem à caixa, 23 cm ao braço e 22 cm à cabeça. Da pestana ao cavalete vão 50 cm, a ilharga com 5 cm junto ao braço e 6 cm no fundo. Boca circular ou em “boca de raia”, escala rasa ao tampo, encordoada com cinco ordens de cordas duplas, sendo 2 ou 3 pares de aço fino, e 2 ou 3 bordões acompanhados de 2 ou 3 cordas finas (cordas superiores).

Na sua construção as madeiras mais usadas são: pinho de flandres no tampo (tília ou choupo nos modelos mais modestos), pau santo para fundo e ilhargas (nogueira nos modelos mais modestos). Tanto o tampo como o fundo devem ser emendados com os veios da madeira emparelhados. A escala é de pau preto, ou de madeira pintada nos modelos mais baratos. O braço pode ser em mogno, ou em choupo, plátano e tília (modelos mais económicos). O cavalete é de pau santo ou madeira pintada. As cravelhas de pau preto, madeira pintada, mas modernamente as cravelhas são mecânicas e de metal.

São mencionadas várias afinações para a viola braguesa, podendo afinar (do agudo para o grave): La3-Mi3-Si2-La2-Ré2.

Em Aveleda (Braga), foram recolhidos por Ernesto Veiga de Oliveira, junto ao violeiro Domingos Manuel Machado, as afinações Mouraria Velha, do agudo para o grave: Sol3-Mi3-Si3-La2-Mi2, e outra designada por Moda Velha (do agudo para o grave): La3-Fá#3-Si3-Sol2-Ré2. Esta afinação tem a particularidade incomum da 3ª ordem de cordas (Si3) ser a mais aguda, o que lhe dá uma sonoridade muito própria e dificulta a execução. Julga-se ser a afinação mais antiga do instrumento.

Bibliografia:

Morais, Manuel – A Viola de Mão em Portugal, A Viola de Arame no contexto português
Oliveira, Ernesto Veiga – Instrumentos Musicais populares portugueses, Edições Gulbenkian
Sampaio, Gonçalo – Cancioneiro Minhoto (1940)

 

BRAGUESA - MODA VELHA CHICO GOUVEIA - CAPA

 

 

Chico Gouveia

Moda Velha

Tradisom

 

Trinta e três anos nos separam das únicas edições discográficas dedicadas à Viola Braguesa. A primeira, o álbum “Braguesa” de Júlio Pereira (1983 ), e a segunda o recente trabalho de Chico Gouveia, “Moda Velha “. Ambos os trabalhos retratam o resgate do toque do meio rural para o meio urbano, com todas as mais valias, nomeadamente os promenores de execução técnica, sem contudo perder a linguagem inicial, mantendo-se assim fiéis aos padrões culturais tradicionais.

No caso concreto do disco “Moda Velha”, do Chico Gouveia, há que destacar a preocupação de incluir uma grande maioria dos temas de carácter inédito, compostos pelo autor, realçando a primeira experiência da internacionalização do toque da Viola Braguesa, nos temas “Caipirando” e a recriação do tema “Arrival Day”.

Não queria concluir sem deixar um repto a todos os músicos tocadores de cordofones e não só: que continuem a explorar a Viola Braguesa na sua plenitude, com todas as afinações e técnicas de execução e reportórios possíveis. nesta era de globalização.

A todos os tocadores e autores de Viola Braguesa um enorme Bem Haja.

Luís Silva