Couple Coffee : Fausto Food – Já Se Ouve (e) Já Se Diz

Sete anos depois de “Quarto Grão” – o álbum em que o duo e casal Luanda Cozetti e Norton Daiello se atiraram à criação de temas originais – e dez após o brilhante álbum “Co’as Tamanquinhas do Zeca!” – que revisitava canções de José Afonso -, os Couple Coffee regressam com outro álbum que fica para a História: “Fausto Food”, uma espécie de ópera-rock (embora sem o lado pomposo e gongórico das homólogas dos anos 70) dedicada a um autor maldito, bendito seja ele: Fausto Bordalo Dias. Sim, Luanda nasceu em Brasília e Norton em Porto Alegre, mas continuam a ser dos melhores a saber pegar no cancioneiro dos nossos grandes cantautores e a recontextualizá-lo, resumi-lo, recriá-lo, reinventá-lo. “Fausto Food” já se ouve. Mas também já se diz:

Luanda, peço-te que deixes aqui uma pequena homenagem ao teu pai, Alípio de Freitas.

Luanda Cozetti – Hoje é dia 13 de Junho; estamos no Jardim do Torel. E hoje o meu pai foi lá para a Constelação da Utopia, que ele tanto amava. Foi para lá encontrar o Zeca (Afonso) e todos os outros amigos que ele tem por lá, e nos deixa aqui, assim… Mas o que é mais importante constatar é que o papai envelheceu muito graciosamente, com muita modernidade, com muito arrojo. E isso fez dele um personagem absolutamente transversal na História. O que, na sua juventude ou na trajectória dele, as pessoas podiam considerar como um arroubo, como qualquer coisa entre o destemido e o perigoso, à medida que ele foi envelhecendo, ficando no mundo e mostrando com exemplos para a vida tudo o que ele pensava, foi-se criando um sentimento muito amoroso à volta dele. Nos últimos anos, então, isso foi muito patente. E eu só posso ser grata e dizer que a maior vitória do meu pai, numa vida tão atribulada, foi ter tido um fim muito sereno; muito mesmo. E é isso que tem que ficar.

O teu pai transformou o mundo. E para bem, não para mal… Há muitas pessoas que não têm essa capacidade de transformar o mundo, mesmo, e há pessoas – entre as que o transformam – que o transformam para o mal. O teu pai transformou-o para bem e influenciou a vida de, posso dizê-lo?, milhões de pessoas.

LC – Não sei se o papai transformou o mundo. Mas, sem dúvida, transformou pessoas. E cada pessoa que ele transformou, nem que fosse um pouquinho, reflecte-se no mundo. Um segundo de mudança na vida de várias pessoas pode reflectir-se num minuto de mudança na vida do mundo. E um minuto na vida do mundo conta, bastante. E acho que o papai foi isso; é isso. Pessoas como o papai não deixam de ser; continuam… Não gosto de falar dele como um exemplo porque, para ele, o exemplo era a acção, mais do que as palavras. E acho que o que ele significa, mesmo, é essa palavra que o Zeca imortalizou em relação a ele: a firmeza, “um homem de grande firmeza”. Porque há que ter um coração muito terno para ser firme. As pessoas confundem firmeza com dureza, mas as pessoas firmes… Esse é o maior legado do meu pai: o legado da firmeza e da ternura. (Nota: Para saber mais sobre Alípio de Freitas, leia: http://www.ofado.pt/?p=8258)

Norton, o disco “Co’as Tamanquinhas do Zeca!” foi editado há dez anos e é o vosso primeiro álbum com versões de um grande cantautor português, José Afonso. E este é um disco feito de coincidências: a canção que o José Afonso dedicou ao Alípio de Freitas estava no seu álbum “Com as Minhas Tamanquinhas” (1976). E, passados 31 anos, a filha do Alípio de Freitas e o respectivo marido, Norton Daiello, fazem um disco só com versões de temas dele e com um título que, para alem de homenagear o José Afonso, homenageia especificamente esse álbum…

Alípio de Freitas_PúblicoNorton Daiello – E é curioso porque nesse disco não fizemos nenhuma versão dessa canção (“Alípio de Freitas”) e toda a gente perguntava porque é que não a tínhamos gravado… Mas veio a aparecer anos depois, em 2012 ou 2013, quando fizemos a reedição desse disco com duas músicas a mais: o “Traz Outro Amigo Também”, em que o (próprio) Alípio canta – chegou ao estúdio, pegou no microfone, gravou uma ou duas vezes e já está; como um profissional -, e o “Alípio de Freitas”, que gravámos com o Júlio Pereira porque ele tinha tocado esse tema com o Zeca centenas de vezes. Há uma história que é contada pelo Manolo Bello: a primeira vez que o Zeca cantou na televisão em Portugal ele fez questão de cantar o “Alípio de Freitas”, que ainda não estava em disco, porque o Alípio estava preso (no Brasil) e a música ficou assim conhecida. E, quando gravámos esse álbum, todos nos perguntavam porque é que não a tínhamos gravado. Já nem me lembro porque é que não a gravámos logo na altura…

LC – Era eu que ainda não estava preparada. Um ano depois de termos chegado a Portugal, em 2006, fazia dezanove anos que tinha morrido o Zeca e fizemos um espectáculo que lhe era dedicado em Guimarães. Para esse concerto fizemos logo uma primeira versão, o “Teresa Torga”, que tem o “Black Dog” dos Led Zeppelin na entrada… E pediram-me para cantar também “a” música (“Alípio de Freitas”). Eu cantei e foi uma choradeira do princípio ao fim. Chorava eu, chorava a plateia… Duas mil pessoas chorando. E eu resolvi, naquele momento, que ainda não tinha estofo para cantar aquela canção porque não conseguia construir uma parede entre mim e… Não sou adepta de fazer as minhas próprias catarses em palco. Palco não é terapia. E quando chegou o momento de gravar, meses depois, não a cantei. Porque, para mim, ela tem outro lugar: o lugar da gratidão, o lugar do amor, o lugar da beleza. Mas, quando foi a reedição há poucos anos, o Júlio Pereira, assertivo, disse-me “Oh pá, gaja, tens que a gravar. Foi a canção que eu mais toquei com o Zeca e tens que deixar esse registo”.

Vocês já tiveram um álbum com temas originais vossos, o “Quarto Grão” (2010). Mas, antes disso, tiveram o já referido álbum de homenagem ao José Afonso, o “Puro” (2005), o “Young and Lovely – 50 Anos de Bossa Nova” (2008) e têm agora o álbum com as canções do Fausto, “Fausto Food”. É muito diferente abordar, conceptualmente, um disco com versões, quer seja de autores específicos quer seja de géneros (como a bossa nova), e um disco de originais?

ND – Isso de dividir originais e versões é uma coisa engraçada porque, na hora em que de fazer uma versão, entre aspas, para nós isso é um original. É uma recriação que temos que fazer a partir do zero. O material está ali – uma melodia, uma letra, uma forma – mas nós encaramo-la como um original. Cada música em que pegamos vai ter uma sonoridade nossa, a sonoridade que a gente imaginou para aquilo. Por exemplo, nesse disco do Zeca tivemos que entender a parte “burocrática” de cada música: o que é que é A, o que é que é B, a introdução, as pontes… O que já existe no arranjo original que dê um novo foco para a nossa (re)criação.

Mas, em todos esses discos e incluindo o novo, vocês não se limitam a pôr um bigode na Mona Lisa, por muito genial que isso possa ser…

ND – (risos) Não. Nós vamos pintar outro quadro. Eu nunca penso que vou fazer uma versão mas sim que vou fazer uma música nova a partir daquilo. Em todos esses casos – da bossa nova ao Zeca ou agora ao Fausto – respeitamos a composição mas com uma roupagem nova. Por vezes, pegamos num detalhe, num pormenor escondido na música, para desenvolvermos uma música diferente, uma música nova. Não vamos transformar por completo mas…

Se no “Co’as Tamanquinhas…” houve uma série de coincidências – ou acasos ou fados ou destinos – mais ou menos óbvias, no “Fausto Food” há também algumas coincidências embora menos óbvias: o Fausto nasceu em pleno Oceano Atlântico numa viagem entre Lisboa e… Luanda.

LC – E achas que eu não pensei nisso? (risos) Eu vou à cata das biografias e vou descobrir milhões de sinais e de ligações. E se um passarinho pousar ali enquanto digo isto, eu acho logo que é sinal. Eu gosto dessas confirmações do destino…. Mas eu tenho essa curiosidade de historiadora, que herdei da minha mãe, em estudar a vida dos compositores e acompanhar a evolução dos seus contextos históricos para perceber melhor a sua obra. E eu fui atrás da vida do Fausto, onde ele viveu, onde deixou de viver… E foi ele mesmo que me contou que tinha nascido num barco a caminho de Angola. Estava predestinado.

fausto bordalo dias_poseQuando vocês se atiraram, digamos assim, à extensíssima obra do Fausto Bordalo Dias, umas larguíssimas dezenas, se não centenas, de canções – tal como antes se tinham atirado a inúmeras canções de José Afonso ou de MPB e bossa nova — como é que vocês fizeram essa triagem? Presumo que tenham sido vários anos de trabalho…

ND – E foi mesmo. Começámos a trabalhar nele em 2011 e esse foi o disco que levámos mais tempo a gravar. A parte do reportório é sempre da responsabilidade da Luanda; é ela que faz a selecção das músicas. Os nossos álbuns contam sempre uma historinha, têm um conceito que parte das letras e esse é o departamento dela. Depois juntamos tudo e eu trato da parte mais musical… O método é: temos cem canções, cortamos para cinquenta, ficam trinta, gravamos vinte, sobram dez (risos).

LC – Quando começámos a pegar na música do Fausto… (pausa) Mas eu queria dizer uma coisa ainda antes: há muita gente na música portuguesa que, se calhar mesmo sem saber ou ter consciência disso, foi beber muito à música do Fausto. É como se fosse um lençol freático que não se vê… mas a água está lá e alimentou os outros rios. (Possivelmente é mais fácil assumir a influência de outros) porque o Fausto tem uma obra muito fechada sobre si mesma. É um lugar. O Fausto não é um meio, é um lugar: a Faustolândia.

ND – Concordo que o Zeca tenha atingido mais pessoas na questão da influência, mas o Fausto é uma unanimidade de respeito musical… É curioso porque, até hoje, nós temos tido uma reacção: “Ah, vocês vão gravar o Fausto? Vocês são corajosos”.

Dizia-se o mesmo quando a Né Ladeiras gravou o “Todo Este Céu”, em 1997…

LC – Pois é. Porque o Fausto, para além do compositor que é, também é um arranjador incrível. Talvez o maior desafio em fazer um disco, não digo de homenagem mas baseado na obra do Fausto talvez seja descodificar os arranjos – e esse é um trabalho incrível do Norton, mesmo – e desligá-los do conceito do disco em que cada música está. Porque os arranjos fazem sentido no contexto da narrativa daquele disco (específico). E então, retirar a música daquele disco, colocar outro arranjo para aquela música fazer sentido numa outra narrativa que estamos inventando… é um trabalho muito cirúrgico.

Como se fosse quase uma autópsia?

LC – Não diria isso. É mais como se fosse uma restauração ao contrário:  você limpa todo o mosaico, vê as suas cores originais e restaura de novo. E aí é o mesmo mosaico mas que adquiriu naquele momento cores diferentes, cores reforçadas. E depois, mais à frente, ainda vai ter outras cores porque outras pessoas vão fazer outras versões… Não sei se é uma coisa brasileira, mas se calhar é mesmo uma coisa brasileira: nós somos apaixonados por reler as canções. Vê lá quantos milhões de versões existem de cada coisa no Brasil. Tanto os consagrados relêem as coisas dos outros quanto… Eu exortaria muito a que se fizessem muitas versões de canções dos outros. E isso não tira o valor das canções próprias, não tira lugar da produção de originais, mas faz-nos conhecer o nosso lugar no mundo, no hemisfério: reler as canções do lugar onde se vive ou de onde se é. No meu caso, eu considero que o cancioneiro português é meu também. Mas é um processo que nos faz muito bem: eu saí da releitura do Fausto uma pessoa diferente. E foi um disco que também mudou muita gente durante o processo: as letras, o entrar naquilo… Porque foi muito diferente a abordagem desse disco em relação ao disco do Zeca Afonso.

Em que sentido?

couple coffee_co'as tamanquinhas do zecaLC – O disco do Zeca teve uma abordagem muito mais solar, muito mais tropical, muito mais leve… A gente estava chegando. E, nesse disco, o personagem é o Zeca; como se o Zeca nos recebesse na plataforma do comboio descendente e fosse por ali fora conhecendo aquele Portugal e aquelas realidades passadas, presentes e futuras que a gente estava vindo conhecer e estava vindo para habitar e experimentar. Esse disco do Fausto, doze anos depois de termos chegado, é já – obviamente  – um disco imerso na nossa realidade urbana de lisboetas. Nós estamos aqui no Jardim do Torel, que é perto da minha casa e onde eu vim de chinelos. Já é um disco colocado dentro de toda uma sonoridade, dentro de todo um contexto urbano no qual eu construí essa (nova) história, esse personagem que permeia o disco: um jovem transversal, entre os vinte e os cinquenta, que vive o que muitos de nós vivemos, da precariedade no emprego e de todas as incertezas da vida… a tudo o resto de que se fala aqui.

Foi de alguma forma mais fácil mergulhar no reportório do Fausto do que no reportório do José Afonso ou no reportório da bossa nova, por ser um território mais “virgem”? Enquanto há centenas de versões de temas do José Afonso – e, se pegarmos só numa canção da bossa nova, há duas ou três mil versões só do “Garota de Ipanema”, que eu não me lembro se vocês chegaram a gravar…

LC – Não. O disco chama-se “Young and Lovely”, mas deixámos a “Garota de Ipanema” de fora de propósito. E isso também porque esse disco é capaz de ser o mais subversivo que fizemos na vida. Quando nos foi feita a proposta de gravar esse disco, nós recusámos porque era  o cliché do cliché: dois brasileiros vêm viver para a Europa e vêm logo gravar um disco de bossa nova. Tínhamos acabado de fazer o disco do Zeca e nós não estávamos nem aí. Mas nessa altura nós estávamos na Uguru e o Tó (Cunha) e a Carmo (Cruz) disseram-nos: “Não, vocês podem pegar nisso e fazer o que quiserem”. “Ai é? Então ‘tá”. E aí encarámos o desafio. Porque para mim e para o Norton, que viemos da música da noite, dos bares, a bossa nova é uma música de escola; uma música que a gente domina para falar com outros músicos. E quando precisávamos de substituir alguém, a pergunta que se fazia era: Tem bossa no reportório? Tem. Então, ‘tá. É como se fosse um dicionário universal entre músicos. Você pode chegar na Dinamarca e vai ter um pianista que, pelo menos, conhece o “Corcovado” ou a “Garota de Ipanema”. E nós, no concerto que deu origem ao disco, nós fizemos tudo o que quisemos: por exemplo, transformámos o “Chega de Saudade” num tango porque a letra pedia.

Recuperando a pergunta… Se foi mais fácil fazer este disco porque a Faustolândia, para usar uma expressão vossa, é quase um território virgem em termos de versões: há o álbum da Né Ladeiras e pouco mais…

 ND – Não, isso não interferiu em nada com o processo. Para dizer a verdade, nem pensámos nisso…

LC – Tal como o contrário também poderia ser verdade: no Brasil, num mesmo ano, podem sair três discos sobre o Cartola, por exemplo. E um não tira o lugar a outro.

ND – E porque é que não há assim tantas coisas do Fausto? O Fausto é difícil, é muito respeitado… e está vivo! O Zeca não está aí; o Vinicius (de Moraes) não está aí; o Tom Jobim não está aí. O Fausto está e, para além disso, ele é muito cuidadoso com a obra dele, com os seus arranjos… Ele tem muito de controlador, no bom sentido, e então a dificuldade foi só essa: de pensamento. Volta e meia vinha-nos à cabeça: “Hi! O Fausto vai-nos matar”. (risos)

LC – Mas nós (estávamos defendidos). A gente falou p’ra ele: “Nós vamos fazer um disco diferente”. Nós pedimos-lhe autorização primeiro. Fomos ao empresário dele à época e fizemos esse caminho. E quando chegámos ao Fausto dissemos-lhe: “Olha que a gente quer mexer mesmo (nas tuas canções). Mexer na forma, tirar um refrão do lugar… E se achar que a gente não deve, nós não fazemos nada”. E a resposta dele foi logo super-bacana, fofinha, magnífica e hospitaleira. E confiou em nós.

Ele pôs algumas condições?

LC – Nenhuma! Nada, nada, nada, nada. E à medida que o disco foi tomando aquela sonoridade mais rude, mais… não digo roqueira mas mais diferente, ganhando outro som, indo para outro lugar, a gente de vez em quando se perguntava… Mas aí já estávamos na estrada e já não havia volta a dar. E aí a gente confiou, também. A minha mãe dizia que a falsa modéstia é o refúgio dos tolos e nós, com trinta anos disto, também já sabemos algumas coisas. Se nesta altura do campeonato a gente não entendeu, ao menos, como não derrapar na curva…

E a reacção dele depois de ouvir o disco foi excelente, como se pode ler no sticker que acompanha o CD…

ND – Sem dúvida. Ele enviou-nos um SMS lindo depois de ouvirmos o disco muitas vezes na casa dele.

Muitas vezes, quantas?

ND – Foram para aí umas cinco…

LC – Ou umas sete!

ND – Ele perguntava-nos: “Não se importam que eu oiça de novo?”. E nós: “Nãoooo; faça favor” (risos). E quando nos viemos embora, ele levou-nos à porta e ainda disse: “Agora vou voltar lá para dentro, colocar os auscultadores e vou ouvir sozinho”.

LC – E eu: “Hey, agora é que ele vai ouvir mesmo! Socorro!”.

ND – Mas dois dias depois chegou o tal SMS: “Magnífico álbum, magnífico instrumental, magnífica voz de Luanda Cozetti”. Assinado: Fausto Bordalo Dias.

Enquanto no “Co’as Tamanquinhas…” só havia canções de José Afonso, neste novo álbum têm um inédito que é dedicado ao próprio Fausto, “Fausto Food”, com letra da Luanda. E quando eu oiço a letra, vem-me à memória o que fazem alguns jornalistas em início de carreira quando se lhes pede um texto sobre, por exemplo, Rui Veloso: “Foi nas férias em  Porto Covo que a Rapariguinha do Shopping conheceu o Chico Fininho; etc”. Não estou a comparar com o teu texto, que é magnífico…

LC – Mas que saiu exactamente dessa ideia! A ideia de fazermos uma música inédita foi do Renato Júnior, o nosso querido produtor musical. Sim, porque esse disco tem essa novidade: haver um produtor, que é o Renato. E uma vez, lá em Olhão – estávamos no estúdio da Viviane e do Tó Viegas -, o Renato disse-me: “Oh miúda, tens que fazer uma música inédita no disco do Fausto”. E eu disse: “Estás mas é maluco. Vou lá escrever uma coisa inédita no disco do Fausto. Vai mas é comprar a carne para grelhar”… Porque ao almoço temos o Tó a grelhar peixe e à noite o Norton, o encantador de filés, a grelhar carne. Mas o Renato começou a dizer a toda a gente que íamos fazer esse inédito e eu (senti-me obrigada). Ainda pensei em pedir a alguém para escrever a letra mas depois lá me convenci a fazê-la. Mas só depois de termos o disco fechado, todo pronto. E no princípio até era para fechar o (alinhamento do) disco, enquanto agora abre o disco. E, entretanto, o disco foi tomando forma, foi sendo gravado, e passou-se… um ano de pavor. Demorei um ano a fazer essa letra!

couple coffee_quarto grãoTanto no “Quarto Grão” como agora nesse tema, como é que vocês trabalham os originais?

LC – Eu geralmente faço a letra e algumas vezes também faço a melodia. Mas aí, depois, é o Norton que vem botar a harmonia, o que para mim é cinquenta por cento do total. E depois vamos fazendo os dois. Geralmente, a melodia vem completinha na cabeça. Nós já temos um disco pronto de inéditos, para o próximo… Mas acontece-me muitas vezes deixar as canções em salmoura; vou e volto a elas. Mas, voltando ao “Fausto Food”, o que eu fiz foi tentar descobrir o vocabulário próprio do Fausto… Todos os compositores têm um leque de palavras, de plurais, de recursos (literários) que fazem parte da sua marca (autoral). O Fausto tem, como o Zeca tem, como o Sérgio (Godinho), como o (Jorge) Palma… E para o “Fausto Food” pensei mesmo em fazer essa brincadeira de aula de literatura, de alguém que está começando e ainda está muito encantado com a obra de alguém. E isso aconteceu mesmo na minha vida com o Fausto: o primeiro disco que tive dele eu tive-o com dez anos de idade. Foi o “Um Beco com Saída” (Nota: editado em 1975). Porque, naquela altura e ainda no Brasil ou com a minha mãe no Guiné, a matemática da música portuguesa era para mim muito simples: se alguém aparecia nas fotos com o Zeca ou nas fichas ténicas dos discos dele, eu queria saber quem era essa pessoa. E aí conheci o Fausto, o José Mário Branco, o Júlio Pereira… até o Quim Barreiros. Comecei a conhecer a obra deles a partir daí. E tudo isso fez também parte da minha formação musical na adolescência. (Influência que se manteve sempre…) Por exemplo, quando fizemos a nossa versão d’“Os Vampiros” (Nota: Para o álbum “Co’as Tamanquinhas do Zeca!”), eu e o Norton já sabíamos que iria sair um baião, mas faltava-nos algo (mais concreto) a que nos agarrar. E aí surgiu-nos o “faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres; folha seca cai ao chão…” (Nota: Do tema “Uns Vão Bem e Outros Mal”), do Fausto, e enxertei essa célula melódica na nossa versão d’”Os Vampiros”: “No céu cinzento sob o astro mudo, batendo as asas pela noite calada, vêm em bandos com pés de veludo…”. Portanto, eu uso o Fausto para trabalhar.

O Fausto serviu-te de ferramenta para um arranjo de um tema…

LC – Do Zeca! Sempre. O Fausto é aquele artista que eu… uso. Foi aqui no Zeca como em outras situações da minha vida de cantora, de música. Como eu uso o Pat Metheny ou o… Aliás, neste novo disco há uma canção do Fausto, “Corações Sentidos Corações” em que no final roda um Pat, não é gatinho? (dirigindo-se ao Norton) E o que é que eu fiz agora no “Fausto Food”? Usei palavras que estão nos títulos das canções que nós gravámos no nosso disco e palavras dos títulos dos discos de onde eu tirei essas canções. E fiz uma espécie de carta ou de um prólogo de uma ópera. O Fausto é um bocado operista…

Ele tem um álbum chamado “A Ópera Mágica do Cantor Maldito”.

LC – Sim. Eu adoro ópera… Colecciono versões da “Carmen” e, no colégio, havia lá uma menina chamada Micaela e eu desconfiava dela (risos). E depois de ter escrito a letra do “Fausto Food”, eu disse para o Norton: tens que fazer um riff (de guitarra) para esta canção. Porque já tínhamos o disco acabado e já tínhamos visto a sua veia roqueira.

Essa letra, que acaba por contextualizar todo o disco, é já uma apresentação do tal personagem que premeia todo o disco?

LC – Sim. Esse personagem, de que já falámos um pouquinho antes, passou connosco os anos da Troika, da austeridade, foi obrigado a decidir se devia partir, emigrar, ou se devia ficar… (Mas tudo de uma forma não definitiva nem linear) No Fausto, o tempo nunca é linear. Por exemplo, “foi por ela que amanhã me vou embora, ontem mesmo hoje e sempre ainda agora”. E então, o nosso personagem faz essa viagem “temporal” ao longo do disco todo, para terminar com aquilo que nos resume a todos: “Somos capitães, somos Albuquerques, nós somos leões, os lobos do mar, e na verdade o que vos dói, é que não queremos ser heróis” (Nota: final de “Olha o Fado”). E é isso que dói ao “establishment”: nós não queremos ser heróis; queremos viver a vida diária.

Norton, fala-me agora tu um bocadinho da parte mais musical desse tema e, já agora, da sonoridade mais rock que está presente em quase todo o álbum…

ND – Então, depois de termos o disco pronto, chegámos a essa canção. E eu passei noites e noites em casa fazendo riffs, pensando em coisas dos Led Zeppelin e assim. E um dia surgiu-me este riff, que é bem rock. Este disco virou rock por duas razões… A primeira música que nós gravámos para o disco foi “Uma Cantiga de Desemprego”. E fizemos uma versão mais acústica, com guitarra acústica, um baixo mais leve, sem bateria. E ficou bonito. Mas ficou muito próximo do original; pouco ousado. E em contraponto a isso decidimos virar aquilo do avesso: vou fazer um loop de bateria mesmo rock, vou “programar” lá um John Bonham (Nota: O falecido baterista dos Led Zeppelin), vou pegar a minha guitarra eléctrica cor de rosa e colocar uma distorção e vou fazer um riff de rock numa canção que originalmente era uma balada. E o resultado dessa mudança do acústico para o eléctrico, nessa música específica, deu a sonoridade do disco todo.

couple coffee_ CapaNeste álbum, vocês os dois – Luanda Cozetti na voz e Norton Daiello no baixo eléctrico e guitarra eléctrica – são omnipresentes mas, depois, o Flak toca muitas guitarras eléctricas e o Alexandre Frazão gravou quase todas as partes de bateria.

ND – Sim. E foram fundamentais para este som. O Flak vem essencialmente do rock. E o Alexandre, apesar de vir do jazz, também é do rock: ele toca nos Led On, uma banda de tributo aos Led Zeppelin que eu adoro e onde também estão o Mário Delgado, o Manuel Paulo, o Zé Nabo… As pessoas nunca são só uma coisa. Eu não sou só jazz ou MPB ou música clássica – que estudei em criança – ou rock. A música é tudo.

O próprio Fausto passou pelo rock, ainda em Angola, com um grupo chamado Os Rebeldes.

LC – Pois é. A música é um jardim tão vasto, tem tantas, inúmeras, flores… que você dizer que gosta só de gerânios é uma perda de tempo no jardim universal.

Depois têm todos os outros músicos que também tocaram no disco, em alguns temas

ND – Sim. O Renato, que para além de produzir também tocou piano e teclados; o João Gentil no acordeão; o José Peixoto e o Pedro Jóia – meu companheiro no Pedro Jóia Trio, também ao lado do João Frade – nas guitarras clássicas; o Tó Viegas noutra guitarra eléctrica… Depois tem os sopros: os gémeos André (trombone) e o Zé Conde (clarinete baixo) e o Rúben da Luz (trombone). E ainda há a Sónia Little B, que toca bateria num tema. Ela costuma tocar com a Viviane e tem uma banda rock óptima lá no Algarve, as Gaijas.

LC – E faltam as vozes: a Uxía, que foi muito importante para fazer este disco, insistindo que tínhamos que o fazer – e como sabes o Fausto também uma unanimidade na Galiza – nesse tema, “Um Bocado da Vida”, que também tem a voz do (igualmente galego) Carlos Blanco. E há a Viviane… Nós somos muito amigos do Tó (Viegas) e da Viviane mas ainda não tínhamos um dueto, eu e ela. Na Rua da Saudade (Nota: Grupo que gravou um álbum de versões de temas com poesia de Ary dos Santos) eu faço um dueto com a Susana (Félix) e outro com a Mafaldinha (Arnauth) e a Viviane faz com elas as duas, mas não tínhamos um nosso. E aquilo nos doeu. Nós queríamos um dueto as duas. E neste disco, o “Rosie” era a canção ideal para a Viviane cantar, com aquele misto de sotaque francês e algarvio, maravilhoso. E ainda há o nosso querido Luiz Caracol, n’”A Explicação das Flores”.

Estamos quase a acabar, mas ainda queria fazer-vos mais uma ou duas perguntas. Temos falado muito do lado mais rock deste álbum, mas andam aqui outros géneros. Há ska, há música africana…

LC – A música africana é mais n’”A Explicação das Flores”. E, lá está, o Luiz Caracol faz questão de dizer que foi gerado em Angola embora tenha nascido em Portugal. Tenho sempre um angolano perto de mim! Esta música tem uma particularidade porque foi o Fausto que a escolheu. Eu fiquei empancada no álbum “Crónicas da Terra Ardente”, sem saber bem qual a canção a escolher. Porque eu também gosto muito desse disco e eu estava ali encalhada sem… E foi ele que me propôs gravá-la. Há muitos géneros misturados no disco (e o melhor é descobri-los ouvindo-o).

Já há concertos confirmados para a apresentação do disco?

ND – Nós já fizemos um, mais experimental, de pré-apresentação em Sesimbra, para vermos como é que estas canções soavam ao vivo. E vai haver muitos concertos mas ainda não temos nada fechado. O que podemos já dizer é que vamos ter uma super-banda a acompanhar-nos ao vivo, com o Flak na guitarra eléctrica, o Jaume Pradas na bateria e o João Rato, que toca guitarra e teclas.

Vão tocar outros temas que não os do álbum? Porque parece-me que não chegam, entre aspas, para um concerto inteiro…

LC – Sim, este é um disco “rápido”, não tem sequer quarenta minutos. É um disco muito directo ao assunto.

ND – Vamos incluir também alguns temas do “Quarto Grão” e do álbum do Zeca. Mas só coisas pontuais, que façam sentido…

LC – E que vão servir ao conceito do disco. Sempre.

António Pires