Maja : Fado É Sorte

Maja Milinkovic_capa

 

 

Maja

Fado É Sorte

Seven Muses MusicBooks

 

Os três últimos discos que me chegaram à caixa do correio – todos eles magníficos, aliás – são assinados por nomes que não têm background no fado mas que, neles, interpretam um fado: a catalã Sílvia Pérez Cruz, o cabo-verdiano Tito Paris e o Pedro Jóia Trio (formado por Pedro Jóia, que já tantas vezes e ainda hoje toca com fadistas e ele próprio já fez versões de fados tradicionais, nomeadamente de Armandinho, mas que não tem o fado como escola; João Frade, que vem do jazz, da clássica e do… folclore algarvio; e o brasileiro Norton Daiello, dos Couple Coffee). E, nestas páginas virtuais, fala-se igualmente do novo álbum da cantora de flamenco Argentina, que tem também um fado.

Sem querer ser exaustivo, e somente a título de curiosidade, aqui deixo uma lista de nomes estrangeiros (artistas e bandas, cantores e intérpretes de guitarra portuguesa) que se apaixonaram pelo fado e ao qual dedicaram já concertos e discos: Hideko Tsukida, Marie Mine, Kumiko Tsumori e Masahiro Iizumi (Japão); Edson Cordeiro e Victor Lopez (Brasil, um país em que muitos dos seus nomes maiores como Caetano Veloso, Fáfá de Belém, Ney Matogrosso, Chico Buarque ou Joanna também o visitam); La Chicana, Luz de Lágrima e Fadeiros (Argentina); Timna (Bélgica); Jenyfer, Lúcio Bamond (França) e Alima (França/Argélia); Névoa  e EnFado (Catalunha); Marco Poeta, O’Fado e Loris Donatelli (Itália); o grupo 15 (Canadá) e Kiran Ahluwalia (Canadá/Índia); Maria Berasarte (País Basco), Maria do Ceo (Galiza); Marcela Ortiz Aznar (México); Marzena Nieczuja-Urbanska (Polóna); Nynke Laverman e Lenny Kuhr (Holanda); Jelena Radan (Croácia); Cao Bei (China). E depois há aqueles estrangeiros que vivem em Portugal como a cantora indiana Sónia Shirsat, a polaca Natalia Juskiewicz (que toca fado em violino) ou o inglês Alan Brown (construiu e toca guitarra portuguesa).

Neste rol bem mais restrito inscreve-se a protagonista desta prosa: a fadista bósnia Maja (Milinkovic), que editou há poucos meses mais um álbum dedicado ao fado, “Fado É Sorte”. Um disco em que, no meio da sua enorme declaração de amor pelo fado – foi por ele que, há quatro anos, Maja trocou a sua Sarajevo natal por Lisboa –, se encontram também belíssimas canções tradicionais da Bósnia e Herzegovina e temas originais, incluindo um com letra e música dela própria, “Esta noite chora uma guitarra/Fado primeiro”, outro com letra dela e música do brasileiro Marcelo Camelo, “Vidi dobro dobri moj”, e um terceiro com letra de Rodrigo Serrão e música dela, “E se esta gente fosse um fado”.

Resumindo muito resumidamente uma vida rica em peripécias, umas doces e outras amargas, dos tempos passados durante o cerco à sua cidade-natal durante a guerra que viria e desmembrar a ex-Jugoslávia até ter-se tomado de amores pelo fado (quando ouviu Amália Rodrigues pela primeira vez, em 2009). Começando por cantar profissionalmente numa banda em que interpretava temas de Janis Joplin, Aretha Franklin ou Tina Turner – que acumulava com as aulas na Academia de Música Clássica de Sarajevo e os estudos na Faculdade de Pedagogia e Psicologia -, Maja viria a tornar-se depois conhecida em todo o seu país e nos países vizinhos devido à sua participação, em 2003 e 2004, em concursos televisivos do género “Ídolos” e em concursos para temas originais que lhe valeram algumas vitórias e arrancou com uma carreira a solo de sucesso enquanto cantora, compositora e letrista, tendo editado dois discos em seu nome, “Zacarani krug” (2006), “Ocekivanja” (2011) e “Expectations” (2012), com temas próprios assinados por ela, também eles bastante festejados pela crítica. Até que o fado, ou a sorte, transformam por completo a sua vida…

Em 2013 – e depois de ter estudado português e os mistérios do fado, para além de o ter cantado em Lisboa no circuito amador em 2012- Maja edita o álbum “Fado Meu”, gravado ao vivo no Kamerni Teatar 55, em Sarajevo, em 2015 lança em single uma versão eslava de “Sei de um rio” (“Znam za rijeku”) e, no início de 2017, este novo “Fado é Sorte”. Um álbum em que é acompanhada por Pedro Pinhal (viola de fado), Nuno Faria (contrabaixo), Pedro Amendoeira e Pedro Ferreira (ambos na guitarra portuguesa) e em que – com uma alma imensa, um enorme respeito e já com muitos dos segredos do fado nela bem entranhados – interpreta fados bem conhecidos como “Ai Maria”, “Casa Portuguesa”, “Casa Portuguesa” e “Sei de um rio” (quatro temas do reportório de Amália Rodrigues), para além do também amaliano não-fado “Sr. Extraterrestre”, dois fados tradicionais – o Fado Cravo de Alfredo Marceneiro e o Fado Tango de Joaquim Campos – mas também fados novos assinados (letra ou música) por nomes como Nuno Faria, Rodrigo Serrão, Pedro Pinhal, Paulo Cavaco ou os já referidos Marcelo Camelo e Maja Milinkovic (ela própria). Para além dos fados há ainda “Kraj tanana sadrvana”, com letra de Hajnrih Hajne sobre música tradicional bósnia, e “Jutros mi je ruza procvjetala”, uma das canções mais populares do cantor e compositor sérvio Petar Tanasijevic (que, para além de servir a sua própria voz com as suas canções, também compôs para as vozes de duas das maiores divas da canção da antiga Jugoslávia, Lepa Lukic e Silvana Armenulic).

No comunicado de imprensa que acompanha o disco, escreve-se que “há certamente raízes comuns ao fado e ao sevdah (música tradicional de Sarajevo) e que também “há seguramente um paralelismo que se pode estabelecer entre a palavra portuguesa saudade e a palavra eslava čežnja“, mas é a própria Maja que refere outros dados relevantes: o paralelismo entre o fado e a sevdah (ou sevdalinka; música tradicional de Sarajevo que ficou bem conhecida dos portugueses que frequentam os festivais folk através dos Mostar Sevdah Reunion) e o facto do nome Amália soar a amajlija, que na sua língua significa amuleto. Sorte, portanto.

(Nota: Há uma quantidade apreciável de puristas do fado, e até de não puristas, que vêm sempre com a conversa dos sotaques e tal. Sim, por vezes um sotaque até pode desviar a atenção do essencial – a profundidade do canto, a emoção ao interpretar, a verdade transmitida, etc – mas… já por aí alguém ouviu algum brasileiro queixar-se da pronúncia ‘tuga de Carminho ou António Zambujo – olá Grammy Latino!!! – ao cantarem álbuns inteiros com temas de Tom Jobim e Chico Buarque?)

António Pires